Um novo estudo da Universidade Stanford indica que a crise dos seguros residenciais na Califórnia deixou de se restringir a regiões mais expostas a incêndios florestais e passou a afetar de forma mais ampla o mercado imobiliário do estado.
Entre o final de 2020 e março de 2026, os prêmios médios de seguro residencial subiram 84%, enquanto as franquias médias avançaram de US$ 1.813 para US$ 2.553 no período.
O levantamento, conduzido pelo Programa de Políticas Climáticas e Energéticas (CEPP, na sigla em inglês), utiliza dados recentes de empréstimos imobiliários e aponta mudanças estruturais na oferta de cobertura.
Segundo o estudo, sete das 12 maiores seguradoras residenciais da Califórnia reduziram ou suspenderam a emissão de novos contratos no estado até 2022, transferindo parte do risco associado a incêndios florestais para um conjunto mais amplo de segurados.
Plano estatal ganha espaço em hipotecas
O estudo também destaca a expansão do Plano FAIR da Califórnia, mecanismo estadual criado em 1968 para oferecer cobertura básica em situações de maior risco ou ausência de oferta privada. O plano cobre danos por incêndio, fumaça, raios e explosões em residências, e hoje representa pouco mais de 5% das casas unifamiliares do estado.
Apesar disso, sua presença em novas hipotecas já alcança cerca de 6% das concessões, o que, segundo os pesquisadores, sugere tendência de ampliação da dependência do mecanismo. Mais de um em cada 17 novos financiamentos imobiliários no estado já ocorre com cobertura mais limitada como única alternativa disponível.
O relatório também observa que quase metade dos clientes do Plano FAIR contrata apólices suplementares para ampliar a cobertura.
Risco climático e regulação na crise
O artigo atribui a deterioração do mercado à combinação entre aumento do risco de incêndios florestais, inflação no período pós-pandemia e um arcabouço regulatório baseado na Proposição 103, de 1988.
A legislação, que inicialmente buscava conter aumentos de tarifas de seguro automotivo, também restringe a capacidade das seguradoras de precificar riscos residenciais de forma mais alinhada às perdas potenciais.
Nesse contexto, o estudo aponta que o risco deixou de ser concentrado em áreas específicas e passou a ser diluído em contratos em todo o estado, o que teria contribuído para a redução da oferta privada de seguros residenciais.
Os incêndios florestais na Califórnia
Em 2025, a Califórnia viu 8.013 incêndios florestais e mais de 500 mil acres queimados. Só os primeiros três meses de 2025 registraram 545 focos de incêndios florestais na Califórnia, com impacto de 58 mil acres queimados até 17 de março.
Já em 2020, no topo da série histórica, mais de 4,2 milhões de acres queimaram. Embora a região tenha uma propensão histórica a incêndios, o total representa um grande aumento na comparação com o início da medição. Em 1963, a área queimada anual era de 32 mil acres.
Entre os principais motivos para essa concentração de queimadas estão os fortes ventos, a seca e o calor, que colaboram para secar a vegetação e acelerar a propagação do fogo.
A ação humana também tem forte impacto: cerca de 95% dos incêndios florestais na Califórnia são iniciados pela atividade humana, como negligências, equipamentos, rede elétrica ou até mesmo casos de incêndio criminoso. Com todos os fatores.
colaborando, basta um pequeno gatilho para que uma faísca se torna um incêndio florestal de grandes proporções.
Debate sobre caminhos para o setor
Entre as possíveis saídas, os pesquisadores citam a revisão das regras para permitir maior alinhamento entre preços e risco real das propriedades, além de investimentos em prevenção de incêndios florestais.
As medidas incluem desde manejo florestal com queimadas controladas até reforço estrutural de residências em áreas vulneráveis. No relatório, os autores resumem a necessidade de reduzir o impacto estrutural dos incêndios como um fator central para a sustentabilidade do sistema de seguros no estado.

