Notícias | 13 de outubro de 2026 | Fonte: InvestNews

O clima custou R$ 1 bilhão em indenizações ao Grupo HDI no Brasil. E o levou a se antecipar aos sinistros

As chuvas que atingiram o centro-sul do país em setembro, muito acima da média histórica, voltaram a colocar sob o holofote os riscos crescentes relacionados a eventos climáticos.

Foram em geral chuvas espalhadas ao longo de semanas, sem grandes tempestades que ganhassem manchetes – mas não por isso menos perigosas e nocivas.

“O mais agressivo não são os grandes eventos, como as enchentes no Rio Grande do Sul [em maio de 2024], são os pequenos e recorrentes, que responderam por dois terços dos nossos gastos em indenizações em dois anos”, disse Eduardo Dal Ri, CEO do Grupo HDI no Brasil, em entrevista ao InvestNews.

O executivo cita como exemplos de tais eventos pequenos e recorrentes uma chuva de granizo de poucos minutos, uma inundação localizada ou um vendaval em cidades fora dos grandes centros.

No Brasil e no mundo, os riscos climáticos crescentes alteram cada vez mais a forma de precificar as apólices e de prever as ocorrências, além de agilizar o atendimento em caso de sinistro.

No citado período de dois anos, o Grupo HDI – segundo maior do país em seguros patrimoniais e de responsabilidade e dono das marcas HDI Seguros, Yelum (ex-Liberty Seguros) e Aliro – desembolsou mais de R$ 1 bilhão em indenizações relacionadas a eventos climáticos.

Cerca de R$ 386 milhões foram pagos por danos causados pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, o maior evento climático enfrentado pelo grupo no Brasil. E o restante, aos eventos de menor porte.

A conta ajuda a explicar por que a seguradora de origem alemã passou a tratar o clima como variável permanente de preço, aceitação de risco e operação – uma prática ainda pouco disseminada no Brasil, como se verá mais abaixo.

Em uma frente, o grupo ampliou o monitoramento meteorológico e os modelos de previsão com uso de IA. Em outra, estruturou protocolos para chegar ao segurado antes mesmo de ele abrir um aviso de sinistro.

A mudança ocorre em uma nova fase de crescimento do grupo, que emitiu R$ 15,8 bilhões em prêmios no Brasil em 2025. Depois de incorporar as operações da Sompo e da Liberty no varejo, o desafio tem sido transformar essa escala em participação de mercado, sobretudo em São Paulo, onde sua presença ainda não acompanha o peso da economia do estado.

“Temos uma ambição bem forte pelo Brasil como um todo mas especialmente em São Paulo”, disse Dal Ri.

Os números mais recentes mostram uma operação mais relevante. A Talanx, controladora alemã do Grupo HDI, informou em seu resultado mais recente que o Brasil, ao lado de Polônia e México, contribuiu para a expansão da divisão de Varejo Internacional no primeiro semestre.

A receita de seguros da unidade subiu 10% na base de comparação anual, descontado o efeito cambial, para € 5,1 bilhões. O Ebit (métrica de resultado operacional) avançou 17%, para € 616 milhões. O balanço não abre os resultados segregados para operação brasileira.

IA para antecipar eventos do clima

Esses episódios climáticos menores, espalhados e recorrentes exigem outro tipo de preparação.

O grupo usa dados de birôs climáticos para avaliar riscos como granizo, enchentes, vendavais e raios há alguns anos. Em 2025, passou a incorporar projeções futuras apoiadas por inteligência artificial aos modelos de subscrição e precificação.

A lógica é tentar antecipar o que historicamente era tratado como exceção. Em vez de aguardar o segurado comunicar o prejuízo, equipes podem ser deslocadas a áreas atingidas com base em dados meteorológicos e na concentração de apólices.

Na prática, isso pode significar levar lonas, assistência e estrutura móvel antes da regulação formal do sinistro.

Há, por outro lado, o risco do “falso positivo”, que pode levar a companhia a mobilizar uma equipe para uma área cujo dano acabou menor do que o previsto. E isso gerar despesas desnecessárias.

Mas a seguradora prefere esse custo ao de chegar tarde a uma cidade em que centenas de clientes precisam de atendimento ao mesmo tempo.

O uso de IA para automatizar pedidos de análise de sinistros de perdas de alimentos por causa de eventos climáticos como tempestades tem se tornado mais comum também no exterior.

A também alemã Allianz lançou seu primeiro sistema de IA agêntico, o Projeto Nemo, no fim de 2025: ele reduz o tempo de processamento de sinistros de dias para horas ao coordenar agentes de IA que cuidam da verificação de cobertura, da checagem das condições climáticas, da triagem de fraudes e do cálculo do pagamento.

Baixas coberturas

O aumento dos eventos climáticos evidencia outra oportunidade para o setor: a baixa penetração de algumas coberturas no Brasil.

Apenas perto de 10% dos R$ 184 bilhões em prejuízos com tais eventos entre 2022 e 2024 no país tinham cobertura de apólices de seguros, segundo cálculos do Radar de Eventos Climáticos e de Seguros no Brasil, da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) em parceria com a consultoria EY.

Dal Ri afirma que apenas 14% das residências dentro do mercado endereçável contam com seguro residencial. Trata-se da metade da penetração estimada para o seguro automotivo.

“O Brasil ainda olha muito o risco, isso como sociedade, e não para a segurança. Nós tendemos a menosprezar os eventos climáticos, ‘porque nunca aconteceu comigo’. Com o carro é diferente, porque acontece de tudo, de acidentes a roubos”, disse o executivo.

Diferentes públicos

Para o grupo, esse cenário sustenta uma estratégia de portfólio mais amplo. Além de HDI e Yelum, a companhia opera a Aliro, voltada a produtos de entrada, com canais de assistência e distribuição.

A rede inclui cerca de 30 mil corretores ativos, segundo a empresa, além de parcerias com bancos e cooperativas para a venda de produtos.

A estratégia inclui a oferta de mais de uma marca e de diferentes faixas de produto, de modo a “facilitar” o trabalho do corretor – e que isso possa ampliar a chance de converter tanto a renovação de uma apólice quanto a venda de um seguro para um cliente sem cobertura.

A Liberty Seguros passou a se chamar Yelum em 2024, um ano depois da conclusão da compra da operação na América Latina pelo HDI por cerca de R$ 7 bilhões.

A mudança de nome não trouxe alterações para a carteira de clientes mas abriu um desafio típico de marcas novas: transformar esse legado em preferência própria.

Para executar essa transição, a HDI decidiu investir em marketing. A Yelum acertou recentemente uma parceria com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e passou a patrocinar a arbitragem brasileira.

O objetivo é usar o futebol para fortalecer a marca em particular em São Paulo, mercado em que, como citado, o grupo vê espaço para crescer e ampliar sua participação.

Segundo a companhia, a parceria levou a um aumento de cerca de 300% no investimento inicialmente previsto para a área de marketing.

Em outra frente, o investimento em dados e IA também ajuda a calibrar preços. Em seguros voltados para o mercado de massa, cobrar acima dos valores de mercado tem impacto direto na competitividade.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Esta é uma área exclusiva para membros da comunidade

Faça login para interagir ou crie agora sua conta e faça parte.

FAÇA PARTE AGORA FAZER LOGIN

Valorizamos sua privacidade

O CQCS utiliza cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência, personalizar conteúdos e analisar o nosso tráfego. Ao continuar navegando, você concorda com o uso dessas tecnologias, de acordo com a nossa Política de Privacidade.

Personalizar preferências de consentimento

NecessárioSempre ativo

Estes cookies são essenciais para o funcionamento adequado do site, garantindo recursos básicos de segurança e acessibilidade. Eles não armazenam nenhuma informação pessoal identificável.

Funcional

Permitem que o site lembre das suas escolhas e forneça funcionalidades aprimoradas e personalizadas, como compartilhamento em redes sociais e integração de recursos de terceiros.

Sem cookies para exibir.

Analítico

Ajudam a entender como os visitantes interagem com o site, coletando e relatando informações de forma anônima. Fornecem dados sobre número de visitantes, tempo na página e fontes de tráfego.

Desempenho

Utilizados para compreender e analisar os principais índices de desempenho do site, ajudando a proporcionar uma experiência de navegação otimizada para os usuários.

Sem cookies para exibir.

Anúncio

Usados para fornecer anúncios mais relevantes aos visitantes com base em suas navegações anteriores, além de ajudar a medir a eficácia das campanhas publicitárias.

Sem cookies para exibir.