Por Thiago Borges do Vale
A inteligência artificial transformou o setor de seguros de maneira profunda e irreversível. O uso dessa tecnologia avança com velocidade em todas as etapas da jornada do cliente. Da cotação à regulação de sinistros, passando pela subscrição e atendimento, a IA ocupa papéis cada vez mais estratégicos nas seguradoras. A edição 276 da Revista Cobertura, em matéria assinada por Carol Rodrigues, retrata com precisão essa nova realidade, destacando como empresas como Olik, Tokio Marine e Grupo Bradesco Seguros estão reformulando suas operações.
Os benefícios são tangíveis. Com o uso da IA, as seguradoras conseguiram automatizar tarefas repetitivas e reduzir o tempo de resposta ao cliente. O CTO (Chief Technology Officer) da Olik, João Alberto Duarte, ressalta o impacto positivo na experiência do segurado, que passou a contar com soluções mais ágeis e precisas. A inteligência artificial ampliou o alcance dos Corretores de Seguros, Representantes e Assessorias, otimizou fluxos de trabalho internos e melhorou a eficiência operacional. Além disso, promoveu uma personalização sem precedentes no relacionamento com os clientes.
No entanto, a adoção dessa tecnologia impõe desafios. A automatização excessiva pode desumanizar o atendimento. Muitos clientes ainda valorizam o contato direto com pessoas, especialmente em momentos delicados como acidentes e perdas. A substituição de equipes humanas por algoritmos levanta preocupações éticas e sociais. A busca por eficiência, se não equilibrada, pode comprometer a empatia e a confiança, pilares do setor segurador.
Outro ponto sensível é a segurança. A IA depende de grandes volumes de dados. Isso amplia o risco de vazamentos e ciberataques. A matéria da Revista Cobertura mostra como o Bradesco Seguros tem investido em inteligência artificial generativa com foco na transparência e proteção das informações. Apesar disso, o aumento da superfície de ataque digital exige atenção constante das seguradoras, que devem investir pesado em governança e compliance.
Matérias recentes do Valor Econômico, da Exame e do Estadão também abordam o tema. A Exame destacou, em reportagem publicada em maio, o uso crescente da IA generativa em plataformas de atendimento automatizado. Já o Valor Econômico chamou atenção para o impacto da tecnologia na precificação de riscos, enquanto o Estadão discutiu os reflexos jurídicos da responsabilização por decisões automatizadas. O setor se encontra em uma encruzilhada que exige regulação ágil e atualizada.
Dennis Milan, diretor da Tokio Marine, lembra que a IA já faz parte do dia a dia das seguradoras há anos. Modelos preditivos, algoritmos de detecção de fraudes e redes neurais vêm sendo utilizados em áreas como aceitação de riscos e ressarcimentos. A diferença agora está no salto proporcionado pelos modelos generativos, como os LLMs (Large Language Models), que permitem uma nova interação com bases de conhecimento e usuários internos. Trata-se de uma mudança estrutural.
A Accenture Brasil, por meio de Raphael Araujo, diretor de tecnologia, projeta que a IA também criará novos riscos. A responsabilidade civil por decisões tomadas por algoritmos, os danos causados por erros computacionais e as implicações de uso indevido de dados pessoais abrirão espaço para produtos inovadores. Surge um campo fértil para a criação de seguros conectados, proteção digital e coberturas para falhas operacionais causadas por sistemas inteligentes.
O equilíbrio entre inovação e responsabilidade será determinante. As seguradoras que souberem combinar inteligência artificial com sensibilidade humana sairão na frente. A tecnologia precisa ser aliada do cliente, não um obstáculo. A evolução exige uma nova mentalidade de negócios, em que o dado orienta a decisão, mas o ser humano permanece no centro da estratégia. O futuro do setor passa, inevitavelmente, pela IA — mas esse futuro precisa ser construído com ética e propósito.
Em um cenário de aceleração digital, o mercado de seguros encontra na IA não apenas uma ferramenta de transformação, mas uma oportunidade de reinventar seu papel na sociedade. A jornada, como mostrou a Revista Cobertura, já começou. Cabe agora aos líderes do setor conduzi-la com visão, prudência e coragem.

