Notícias | 2 de outubro de 2026 | Fonte: Exame

Na economia do delivery, entregadores viram novo mercado para seguradoras

O crescimento do trabalho por aplicativo está criando um novo mercado também para as seguradoras. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, havia 325 mil profissionais que têm as entregas por aplicativos como atividade principal.

Os números sobre acidentes com motociclistas impressionam. Em São Paulo, estado com a maior frota de motocicletas do país, 46.778 motociclistas se envolveram em acidentes, 1.830 óbitos no período entre janeiro e agosto de 2026, um aumento anual de quase 2% para os dois tipos de ocorrência quando comparado ao mesmo período do ano anterior.

A demanda por proteção aos entregadores moldou um produto com característica própria: em vez de seguros tradicionais, com mensalidades ou anuidades fixas, as empresas estão oferecendo produtos que acompanham o momento em que o trabalhador está efetivamente na rua. A cobertura pode começar quando ele aceita uma entrega e terminar quando o pedido é concluído.

Os seguros cobrem de acidentes mais leves àqueles que causam incapacidade temporária, invalidez permanente ou até morte. Além disso, algumas empresas oferecem auxílio-funeral, auxílio-educação para os filhos e outros auxílios para a família. Há também variações que protegem veículos e mercadorias transportadas.

As novas seguradoras

É nesse mercado que atuam empresas como Iza Seguradora e 88i. Ambas nasceram do Sandbox Regulatório da Superintendência de Seguros Privados (Susep), um ambiente onde empresas com estruturas reduzidas puderam testar produtos inovadores com regras diferenciadas.

A Iza afirma ter mais de 250 milhões de entregas protegidas por seus sistemas. Na 88i, a empresa afirma que paga dezenas de milhares de sinistros todos os meses e o volume vem crescendo em ritmo de três dígitos ao ano, próximo de 100%, acompanhando a expansão da base de clientes e das operações.

“O principal diferencial da 88i é partir da necessidade do trabalhador e adaptar o seguro à dinâmica da atividade, e não o contrário”, afirma Rodrigo Ventura, CEO da 88i. “Para quem tem uma renda variável, a proteção precisa acompanhar o seu fluxo de trabalho.”


A lógica é especialmente relevante para uma categoria cuja renda pode mudar de um dia para o outro. Em vez de pagar por uma proteção que fica ativa durante todo o mês, o trabalhador pode ter cobertura somente enquanto estiver realizando entregas.

“A gente entrou com a estratégia de pensar qual segmento tem a maior dor de não atendimento e que as grandes seguradoras não têm apetite de risco”, diz Gabriel Charbonnières, CEO da Iza Seguradora.

A companhia atende, por exemplo, empresas como Zé Delivery e Lalamove. Mas outras também estão nesse mercado. A MetLife é parceira do iFood para segurar os entregadores, enquanto a Ezze Seguros é da 99Food. Na Uber, a parceria é com a Chubb Seguros Brasil S.A. A Keeta também oferece seguro para seus colaboradores, mas, procurada pela reportagem, não informou sua seguradora parceira.

De acidentes mais leves à invalidez

Na 88i, a oferta inclui seguros para perda de renda, acidentes pessoais e proteção da mercadoria transportada. No primeiro caso, a cobertura pode proteger o trabalhador em situações de incapacidade temporária provocada por acidente.

Já o seguro de acidentes pessoais prevê indenização em casos como morte acidental e invalidez, enquanto a proteção da mercadoria cobre eventos como roubo, furto ou danos à carga durante o trajeto. As indenizações podem chegar na casa dos R$ 100 mil.


A Iza segue uma lógica semelhante. Na companhia, o seguro de acidentes pessoais é voltado principalmente a profissionais autônomos e oferece cobertura para morte acidental, despesas médicas e hospitalares, invalidez e incapacidade temporária.

Nesse último caso, o segurado recebe uma diária durante o período em que estiver impossibilitado de trabalhar. Os valores segurados variam de R$ 30 mil a R$ 120 mil, conforme a cobertura contratada.

Segundo Charbonnières, a seguradora identificou nos trabalhadores autônomos um público com grande necessidade de proteção e pouco atendido pelo mercado tradicional.

“A gente viu no segmento de profissionais autônomos, que é um mercado gigantesco no Brasil, e que cresceu de forma exponencial pós-Covid, uma oportunidade. Nossa tecnologia nos diferencia muito em relação ao mercado tradicional”, afirma.

A companhia criou o que Charbonnières chama de seguro “liga e desliga”. “No momento que a pessoa aceitou a corrida para fazer uma entrega até o momento que terminou a corrida, se houver algum acidente, a gente já está sabendo, e ela terá um seguro, dependendo do acordo com a plataforma, que pode chegar a R$ 120 mil”, diz.

A Iza fica integrada ao sistema das plataformas e recebe informações sobre a entrega para acompanhar o trabalhador. “A gente fez um acordo com, por exemplo, o Zé Delivery. No momento que alguém faz um pedido, a Iza já sabe que o trabalhador vai fazer a entrega na sua casa”, afirma.

Pela geolocalização, a seguradora consegue acompanhar o trajeto enquanto a cobertura está ativa. Se houver um acidente, a tecnologia também pode acelerar o acionamento do seguro. “Se nesse período tiver uma parada, algum acidente, a gente já está sabendo. O nosso tempo médio de atendimento é 26 segundos”, diz Charbonnières.

Segundo o executivo, mais de 90% das quase 2 milhões de vidas seguradas pela Iza nunca haviam consumido seguro antes (o dado inclui outros tipos de seguros, não apenas trabalhadores de aplicativos). Ventura, da 88i, traz um número parecido: “Cerca de 80% dos clientes da 88i nunca haviam contratado um seguro antes, o que mostra que estamos falando, em muitos casos, da primeira experiência dessas pessoas com proteção securitária.”

Seguro vira benefício para conquistar entregador: quem paga por ele?

A expansão desse mercado também interessa às próprias plataformas. Como muitos entregadores trabalham para mais de um aplicativo, oferecer proteção pode ser uma forma de diferenciar a plataforma e aumentar a fidelização desses profissionais.

“Quando o trabalhador recebe chamadas simultâneas de dois aplicativos e sabe que em uma das entregas ele poderá ter uma proteção para acidentes e, principalmente, um seguro de renda em caso de afastamento por necessidade, ele acaba escolhendo quem lhe oferece esta possibilidade”, afirma Ventura.

A empresa diz observar potencial de aumento de até 15% na atividade, podendo chegar a 20% em determinadas situações, quando a proteção é incorporada à relação entre plataforma e trabalhador.

Na 88i, porém, quem paga pelo seguro depende do produto. O próprio trabalhador pode contratar e pagar uma cobertura, como a de perda de renda, ou a plataforma e conceder como benefício ao entregador. Também há produtos pagos pelo consumidor, como a proteção da mercadoria transportada durante uma entrega.

Na Iza, o modelo voltado aos entregadores é parecido: a plataforma contrata e paga a cobertura para os profissionais que trabalham em sua operação. O trabalhador, nesse caso, não precisa comprar o seguro diretamente.

“A plataforma contrata a seguradora, no caso, de forma compulsória, para proteger aqueles prestadores que estão prestando serviços para a plataforma num período específico”, explica Charbonnières.

Quanto custa proteger uma entrega?

O preço é outra diferença em relação ao seguro tradicional. Em vez de um valor fixo para cada trabalhador, a cobrança pode acompanhar a quantidade de entregas realizadas pela plataforma. “É por volumetria. Temos plataformas que fazem 10 mil entregas por mês e eu tenho plataforma que faz 8 milhões de entregas por mês”, afirma Charbonnières.

Na 88i, a lógica também pode ser calculada pela unidade da atividade. A cobertura pode ser contratada por quilômetro rodado, entrega, rota, diária ou período de trabalho. “O preço é definido de acordo com a cobertura e, principalmente, com a forma de utilização, essa é uma das características do nosso modelo”, afirma Ventura, citando R$ 0,017 por quilômetro rodado.

Para as seguradoras, a tecnologia permite transformar a atividade do trabalhador em uma espécie de unidade de risco. Quanto tempo ele ficou trabalhando? Quantas entregas fez? Qual foi a distância percorrida? Essas informações ajudam a definir quando a cobertura começa, quando termina e quanto será cobrado.

Na Iza, Charbonnières afirma que o ganho de escala também ajuda a diluir o risco. “Quanto maior o volume de entrega, o ticket médio fica mais barato. Estatisticamente, a volumetria permite que poucas paguem para mais pessoas usarem, porque é essa questão de frequência: qual é a probabilidade de alguém quebrar a perna naquele trajeto?”

O risco está crescendo junto com a atividade

A expansão dos seguros voltados à economia de aplicativos acontece em um mercado de trabalho em que a proteção tradicional ainda é limitada. Na prática, as seguradoras enxergam aí uma oportunidade para vender proteção a pessoas que não necessariamente procurariam uma apólice por conta própria.

Para as seguradoras, o aumento da base de trabalhadores também significa aumento da exposição a acidentes e perda de renda. A 88i afirma já ter emitido mais de 40 milhões de apólices e diz conseguir pagar determinados sinistros em até 24 horas.

Na Iza, a sinistralidade da carteira de delivery ficou entre 58% e 60%, segundo Charbonnières. No acumulado dos oito primeiros meses do ano citado pelo executivo, chegou a 70%. “Ou seja, de cada R$ 100 que a gente fatura, gastamos com acidentes R$ 70”, afirma.

De entregas a uma nova categoria de seguro

A aposta das duas empresas vai além de vender um seguro específico para motoboys. A tese é que a própria forma de trabalhar por aplicativo exige uma mudança no desenho dos produtos. “Nosso foco não é apenas o mercado de entregadores, mas a economia digital, ou gig economy”, afirma Ventura.

Na 88i, a meta é levar esse modelo para outros mercados. A empresa faturou R$ 43 milhões em 2025, segundo Ventura, quase o dobro do ano anterior, e pretende chegar a R$ 1 bilhão em receita em três anos. A companhia também afirma estar estruturando uma nova rodada de investimentos.

Na Iza, a estratégia também passa pela expansão da base. A empresa reportou receita de R$ 73 milhões em 2025 e trabalha para chegar a R$ 100 milhões em 2026, segundo Charbonnières.

A economia de aplicativos é um mercado que vem atraindo cada vez mais negócios. Em agosto, uma mudança nas regras da Caixa Econômica Federal passou a permitir que os ganhos obtidos em plataformas de delivery e mobilidade sejam considerados na comprovação de renda para o financiamento habitacional. Na prática, entregadores e motoristas de aplicativo passam a ter uma barreira a menos para tentar acessar o crédito para a casa própria.

O que diz a lei?

Na Câmara dos Deputados, há mais de 10 propostas em tramitação para a criação de seguros para entregadores e motoristas de plataformas digitais. O mais avançado, segundo Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli, Porto & Andreghetto Advogados, é o PL nº 2.479/2025.

“Ele trata especificamente da contratação de seguro contra acidentes para entregadores de delivery. A proposta já foi aprovada pela Comissão de Comunicação da Câmara dos Deputados e atualmente aguarda parecer na Comissão de Trabalho. Depois, ainda deverá passar pela Comissão de Constituição e Justiça”, afirma Vlavianos.

Esse projeto de lei prevê que as plataformas de entrega contratem e custeiem integralmente um seguro contra acidentes pessoais e materiais. A cobertura inclui acidentes durante a prestação do serviço e no trajeto, morte acidental, invalidez permanente ou temporária, assistência médica e odontológica emergencial, danos ao veículo ou equipamento utilizado pelo entregador e prejuízos pessoais ou materiais causados a terceiros.

O texto estabelece cobertura mínima de R$ 150 mil para acidentes pessoais e de R$ 50 mil para danos materiais.

Já o PL nº 1.126/2026, apresentado em março deste ano, é mais recente e está em uma etapa anterior. A proposta foi anexada, em abril, ao PL nº 32/2026 e passou a tramitar junto com ele. O projeto está na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços, onde aguarda o parecer do relator Julio Lopes (PP-RJ).

“Um dos principais pontos do projeto, especialmente para os entregadores de delivery, é a criação da obrigação de que as plataformas disponibilizem, gratuitamente, um seguro contra acidentes pessoais. A cobertura deverá valer durante o período compreendido entre o aceite da chamada e a finalização da entrega ou o retorno à base, quando houver”, explica Tatiana Sant’Anna, do Durão, Almeida & Pontes – Advogados Associados.

Na prática, se o entregador sofrer um acidente nesse período, o seguro deverá contemplar, no mínimo, despesas médicas e hospitalares, invalidez permanente e morte decorrentes do acidente. “Isso significa que a proposta cria uma proteção financeira específica para situações que podem comprometer diretamente a saúde e a capacidade de trabalho do entregador”, complementa.

‘Perguntas frequentes’

Como funciona o seguro para entregadores de aplicativos? +

O seguro pode ser ativado quando o trabalhador aceita uma entrega e encerrado após a conclusão do pedido. Na Iza Seguradora, Gabriel Charbonnières, CEO da companhia, chama o modelo de seguro “liga e desliga”.

Quais coberturas são oferecidas aos entregadores? +

Os seguros cobrem de acidentes mais leves àqueles que causam incapacidade temporária, invalidez permanente ou até morte. Além disso, algumas empresas oferecem auxílio-funeral, auxílio-educação para os filhos e outros auxílios para a família. Há também variações que protegem veículos e mercadorias transportadas.

Quanto os seguros da Iza Seguradora e 88i indenizam? +

Na 88i, as indenizações podem chegar na casa dos R$ 100 mil, enquanto na Iza Seguradora esse  montante chega a R$ 120 mil.

Como é calculado o preço do seguro para entregadores? +

O preço pode acompanhar o volume de entregas da plataforma ou ser calculado por quilômetro rodado, entrega, rota, diária ou período de trabalho. Segundo Gabriel Charbonnières, da Iza Seguradora, o aumento do volume de entregas ajuda a reduzir o custo médio.

Quantos entregadores e motociclistas estão expostos a esse mercado? +

Segundo o IBGE, 325 mil profissionais tinham as entregas por aplicativos como atividade principal em 2025. De acordo com o Infosiga.SP do Detran, o estado de São Paulo registrou 1.830 mortes de motociclistas entre janeiro e agosto de 2026, alta de 1,9% ante o mesmo período de 2025.

O seguro para entregadores pode se tornar obrigatório? +

Há mais de dez propostas sobre seguros para entregadores e motoristas de plataformas digitais em tramitação na Câmara dos Deputados. Segundo Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli, Porto & Andreghetto Advogados, o PL nº 2.479/2025 é o mais avançado e prevê que as plataformas custeiem integralmente coberturas contra acidentes pessoais e materiais.

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