A informalidade continua sendo uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro e amplia a exposição de milhões de profissionais a riscos financeiros. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de informalidade ficou em 39,39% no terceiro trimestre de 2025, ante 40,34% no mesmo período de 2024. O cenário representa cerca de quatro em cada dez trabalhadores nessa condição. Estima-se de acordo com esses dados que aproximadamente 40 milhões de pessoas estão sem as garantias típicas do emprego formal.
Para trabalhadores autônomos e empreendedores, um afastamento provocado por doença, acidente ou incapacidade pode comprometer diretamente a principal fonte de renda. Sem a mesma estrutura de proteção associada ao emprego formal, esses profissionais precisam construir individualmente mecanismos para reduzir o impacto financeiro de imprevistos.
Na avaliação de Simone Magalhães, especialista em Seguro de Vida, um dos principais riscos é justamente aquele que muitas vezes não é percebido pelo trabalhador: a perda temporária ou definitiva da capacidade de gerar renda.
Para ela, a relação entre trabalho e renda é especialmente direta entre quem atua por conta própria. “Para quem trabalha por conta própria, a renda está diretamente ligada à capacidade de trabalhar. Se esse profissional adoece, sofre um acidente ou fica incapacitado, ele pode não ter a mesma estrutura de proteção vinculada a um emprego formal e precisa, muitas vezes, construir individualmente essa rede de segurança.”
A especialista também aponta uma barreira comportamental. Segundo Simone, parte dos autônomos ainda acredita que o seguro de vida tem custo elevado: “O seguro de vida pode ser dimensionado de acordo com a realidade, a renda, a profissão e as necessidades de cada pessoa. Por isso, a pergunta não deveria ser apenas ‘quanto custa um seguro?’, mas principalmente: ‘qual seria o impacto financeiro se eu tivesse que parar de trabalhar amanhã, por causa de um imprevisto que não controlo, não é da minha vontade e não tenho como evitar?’”
Nesse contexto, seguros de vida com coberturas de invalidez podem funcionar como uma ferramenta de proteção financeira diante de eventos capazes de comprometer a capacidade de trabalho, sempre de acordo com as condições previstas na apólice. Já a Previdência Privada atua em outra frente: o planejamento de longo prazo.
Para Simone, os dois instrumentos podem cumprir funções complementares. Enquanto o seguro de vida ajuda a proteger o presente diante de imprevistos, a Previdência contribui para a formação de uma reserva para o futuro.
“O seguro de vida tem um papel importante tanto na proteção em caso de morte quanto nas coberturas que podem ser utilizadas em vida, como as relacionadas à invalidez e outras situações previstas na apólice. O objetivo é proteger financeiramente o cliente diante de eventos que podem comprometer sua capacidade de trabalhar e, consequentemente, sua renda.”
A especialista destaca que a proteção precisa considerar as características de cada pessoa. Profissão, renda, responsabilidades e riscos devem ser avaliados antes da definição das coberturas.
“Já a Previdência Privada entra em uma outra dimensão: o planejamento do futuro. Existe uma falsa sensação de que teremos capacidade de trabalhar e gerar renda para sempre. Não teremos. A capacidade produtiva é finita e, por isso, precisamos transformar parte da renda de hoje em planejamento para o amanhã.”
Segundo ela, a Previdência também pode contribuir para a educação financeira e funcionar como complemento ao INSS, ajudando o trabalhador a formar uma reserva para uma fase em que a renda proveniente do trabalho poderá ser menor.
“Por isso, seguro de vida e Previdência Privada não devem ser vistos necessariamente como produtos concorrentes. Pois cumprem papéis complementares: um ajuda a proteger o presente diante dos imprevistos; o outro ajuda a construir o futuro.”
A diversidade das atividades exercidas por trabalhadores autônomos e informais também representa um desafio para a criação e distribuição de soluções de proteção. Na visão de Simone, seguradoras precisam considerar as particularidades desse público para ampliar o acesso a produtos mais adequados.
“Acredito que o mercado de seguros precisa olhar com mais atenção para a diversidade das atividades profissionais exercidas pelos trabalhadores autônomos e informais.”
Ela explica que os corretores encontram dificuldades para enquadrar determinadas atividades profissionais nas regras existentes e que, mesmo quando o enquadramento é possível, nem sempre todas as coberturas necessárias estão disponíveis.
Entre os riscos que merecem atenção está o afastamento temporário provocado por doença ou acidente. Para quem trabalha por conta própria, a interrupção da atividade pode significar uma redução imediata ou até a perda da renda, enquanto despesas como aluguel, alimentação, escola dos filhos e financiamentos continuam existindo.
“É importante separar duas coisas: acesso à saúde e proteção financeira.”
A especialista reconhece o papel do SUS no atendimento à população, mas destaca que o tratamento de saúde não necessariamente resolve o impacto financeiro provocado pela interrupção do trabalho.
“O tratamento pode estar garantido, mas quem paga as contas enquanto esse trabalhador não pode trabalhar?”
Para ela, o desenvolvimento de soluções mais aderentes às diferentes atividades profissionais poderia ampliar a proteção desse público e, ao mesmo tempo, facilitar o trabalho dos corretores.
“Isso também facilitaria o trabalho do corretor e permitiria que ele oferecesse uma proteção mais adequada, em vez de simplesmente adaptar o cliente às limitações de um produto.”
Outro ponto destacado é a necessidade de tornar as soluções acessíveis a diferentes faixas de renda. Simone ressalta que não existe um valor único de seguro adequado para todos os clientes. Em sua experiência, alguns planejamentos consideram um custo de proteção de até 3% da renda líquida, mas ela ressalta que esse percentual não deve ser tratado como regra.
“Não importa apenas quanto a pessoa ganha. Importa entender o que ela precisa proteger.”
A ampliação da proteção entre trabalhadores autônomos e informais também depende da forma como o corretor aborda esse público. Para Simone, a venda de um produto sem antes compreender as necessidades do cliente tende a ser menos eficiente.
“No seguro de vida, simplesmente oferecer um produto dificilmente funciona. Antes de vender uma solução, o corretor precisa entender o problema.”
Ela compara a atuação do corretor à de um médico, que primeiro investiga o histórico e identifica os riscos antes de recomendar um tratamento. Na mesma lógica, o profissional de seguros deve entender como o cliente gera renda, quem depende financeiramente dele e quais acontecimentos poderiam comprometer sua capacidade de trabalho.
“A venda consultiva começa com uma consulta. Precisamos entender quem é aquele cliente, como ele gera renda, quem depende financeiramente dele, quais são suas responsabilidades, quais riscos podem interromper sua capacidade de trabalhar e qual seria o impacto financeiro de uma doença, acidente, invalidez ou morte.”
Essa abordagem pode ser especialmente relevante entre trabalhadores informais, que precisam conciliar proteção diante de imprevistos com planejamento financeiro de longo prazo.
“A partir desse diagnóstico, o corretor consegue apresentar uma solução coerente com aquilo que o próprio cliente identificou como prioridade.”
Para a especialista, o profissional não deve iniciar a conversa pela apólice, mas pela realidade do cliente. Nesse modelo, o seguro passa a ser apresentado como parte de uma estratégia de proteção financeira, e não apenas como uma despesa. Para os trabalhadores autônomos e informais, a discussão pode envolver tanto a continuidade da renda diante de imprevistos quanto a preparação para o futuro.
“O papel do corretor, portanto, vai muito além de intermediar a contratação de um produto. É atuar como um consultor de proteção financeira, ajudando o cliente a identificar vulnerabilidades que muitas vezes ele nunca havia parado para calcular.” Concluiu Simone.


