A intensificação dos eventos climáticos extremos prevista para o segundo semestre de 2026 coloca um novo desafio para as empresas brasileiras: revisar suas estratégias de proteção. Segundo a Alper Seguros, uma das principais consultorias de riscos do país, o maior risco para as organizações não está apenas nos danos físicos causados por fenômenos como enchentes, secas e ondas de calor, mas na interrupção das operações, impacto no fluxo de caixa e falta de planejamento adequado.
Sob a liderança de Fábio Ursaia, SVP de Riscos Corporativos e Resseguros da Alper Seguros, a companhia alerta para uma “lacuna bilionária” de proteção no ambiente corporativo: empresas que ainda concentram seus esforços em proteger ativos físicos, mas deixam vulneráveis receitas, fornecedores estratégicos e cadeias de suprimentos.
De acordo com o executivo, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceções e passaram a integrar permanentemente a agenda de gestão de riscos das companhias. O desafio agora é transformar essa percepção em ações concretas de prevenção e transferência de riscos.
“O mercado corporativo está evoluindo, mas em velocidades diferentes. O evento climático não é mais o risco. O risco está em continuar tratando como imprevisível algo que já sabemos que vai acontecer. A pergunta não deveria ser se a empresa sofrerá algum impacto climático relevante nos próximos anos, mas quão preparada ela estará quando isso ocorrer”, provoca Fábio Ursaia.
Segundo a Alper, um dos principais desafios identificados nas apólices corporativas é a diferença entre a percepção das empresas sobre o que está protegido e os riscos efetivamente cobertos. Em situações de eventos climáticos severos, a interrupção das atividades pode gerar perdas superiores aos danos materiais iniciais.
Para a companhia, estruturas físicas podem permanecer preservadas enquanto problemas relacionados a fornecedores, transporte e operações comprometem a geração de receita.
“Talvez a maior lacuna de proteção no Brasil não está necessariamente na ausência de seguros, mas no foco equivocado. Muitas organizações descobriram que podiam manter suas instalações intactas e, ainda assim, sofrer perdas significativas porque fornecedores, transportadores ou parceiros estratégicos ficaram impossibilitados de operar. No fim, empresas raramente quebram porque perderam um prédio. Elas quebram porque perderam receita durante tempo suficiente para comprometer sua liquidez”, explica o executivo da Alper.
Como alternativa para reduzir esses impactos, a empresa destaca a importância de coberturas integradas, como Lucros Cessantes por Danos Materiais e Interrupção de Negócios (Business Interruption), que ajudam a proteger a continuidade operacional diante de paralisações.
A atuação das empresas também precisa considerar as diferenças regionais do impacto climático. Segundo a Alper, o El Niño pode provocar cenários distintos no país, com chuvas intensas e enchentes na Região Sul, riscos de seca e queimadas no Norte e Nordeste e possíveis restrições no Centro-Oeste.
Para companhias com operações distribuídas em diferentes localidades, a recomendação é abandonar modelos genéricos de proteção e realizar um mapeamento detalhado das vulnerabilidades específicas de cada negócio.
“A construção da proteção deve partir do mapa de vulnerabilidades do negócio. É necessário entender onde estão os ativos críticos, quais unidades geram mais receita e quais fornecedores são indispensáveis. O objetivo não é proteger apenas estruturas físicas, mas preservar a capacidade da empresa de continuar produzindo, vendendo, entregando e gerando caixa, independentemente de qual região esteja sendo impactada”, detalha Ursaia.
Para a Alper, a gestão dos riscos climáticos deixou de ser uma preocupação restrita às áreas operacionais e ambientais e passou a fazer parte da agenda estratégica de conselhos de administração e executivos.
Com a disponibilidade de dados históricos, modelos preditivos e projeções científicas, a companhia avalia que empresas precisam incorporar o tema à governança corporativa e aos compromissos de ESG.
“Estamos assistindo a uma mudança importante. Durante muito tempo, esse tema foi tratado como uma questão operacional ou ambiental. Hoje, ele é um tema de governança. Os eventos climáticos deixaram de ser apenas testes de infraestrutura; passaram a ser testes de governança. E, em um futuro não muito distante, é provável que a pergunta do mercado não seja apenas por que a empresa sofreu um impacto, mas o que ela fez para se preparar sabendo que esse impacto poderia ocorrer”, conclui Fábio Ursaia.

