O avanço da inadimplência no Brasil, impulsionado por fatores como o uso excessivo do crédito e o crescimento das apostas esportivas online, evidencia a necessidade de fortalecer a educação financeira da população. Para o consultor Francisco Galiza, mestre em Economia pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e catedrático da ANSP (Academia Nacional de Seguros e Previdência) na cadeira de Ciências Econômicas do Seguro, a solução definitiva passa por uma mudança de comportamento — e isso inclui ampliar também a educação securitária.
Dados mais recentes do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa mostram que o Brasil já soma quase 85 milhões de consumidores negativados, um crescimento expressivo em relação à média de aproximadamente 70 milhões registrada em 2023. Em quatro anos, foram cerca de 15 milhões de novos inadimplentes, refletindo o agravamento da situação financeira de milhões de famílias.
O levantamento aponta que as maiores dívidas continuam concentradas no cartão de crédito e nas contas básicas, como energia elétrica, água e gás. Além disso, a faixa etária entre 41 e 60 anos representa a maior parcela dos consumidores com restrição de crédito, concentrando entre 35% e 40% do total. O valor médio dos acordos fechados na plataforma da Serasa gira em torno de R$ 800, demonstrando que muitos brasileiros buscam renegociar débitos para recuperar o acesso ao crédito.
Na avaliação de Francisco Galiza, o cenário reforça que programas emergenciais de renegociação, como o Desenrola Brasil, cumprem um papel importante ao oferecer alívio imediato às famílias endividadas. No entanto, eles não resolvem a origem do problema.
“O caminho mais eficaz no longo prazo é investir em educação financeira. É preciso que as pessoas aprendam a planejar o orçamento, controlar despesas, evitar o endividamento excessivo, formar uma reserva de emergência e investir de maneira consciente”, analisa o economista.
Segundo Galiza, esse processo também deve incluir a educação securitária, ainda pouco difundida no país. Para ele, compreender o papel do seguro dentro do planejamento financeiro é fundamental para aumentar a proteção patrimonial das famílias e reduzir os impactos econômicos provocados por imprevistos.
“O seguro não deve ser visto apenas como uma despesa, mas como um instrumento de proteção financeira. Quando a população entende essa função, consegue tomar decisões mais conscientes e construir uma vida financeira mais resiliente”, destaca.
O especialista observa que o crescimento das plataformas de apostas esportivas, as chamadas bets, intensificou o debate sobre educação financeira no país. Embora diversos fatores expliquem o aumento da inadimplência, o comprometimento da renda com jogos de aposta passou a preocupar especialistas e autoridades, sobretudo entre consumidores que já enfrentam dificuldades para equilibrar o orçamento.
Para Francisco Galiza, o combate ao endividamento passa necessariamente por uma política permanente de educação financeira e securitária. “Medidas emergenciais são importantes, mas somente o conhecimento permitirá que as famílias desenvolvam hábitos financeiros saudáveis e estejam preparadas para enfrentar riscos ao longo da vida”, conclui.

