Os estragos provocados pelas chuvas em Juiz de Fora e em outras cidades da região voltam a expor uma fragilidade recorrente no modelo de proteção patrimonial brasileiro. A cada novo episódio de enchentes, deslizamentos ou alagamentos, repete-se a mesma sequência: perdas materiais expressivas, famílias desassistidas e uma discussão tardia sobre a necessidade de ampliar a cobertura securitária para eventos dessa natureza.
Não se trata de um problema novo. O Brasil convive há décadas com eventos climáticos severos. A mudança foi a frequência e a intensidade com que eles passaram a ocorrer. O que antes era tratado como exceção começa a se configurar como parte do padrão de risco do país.
O mercado segurador acompanha essa transformação com atenção. Depois da catástrofe que atingiu o Rio Grande do Sul, o debate ganhou ainda mais força. Grupos de trabalho foram constituídos em diferentes instâncias do setor, no Fórum Mário Petrelli de Fomento do Mercado de Seguros, na Fenacor e também no âmbito da própria SUSEP, justamente para discutir caminhos que permitam ampliar a proteção oferecida ao consumidor.
A questão central é simples de formular, embora complexa de resolver: “por que coberturas como alagamento, inundação ou desmoronamento ainda não fazem parte da cobertura básica do seguro residencial no Brasil?”
Hoje, na maioria dos produtos disponíveis, essas proteções são tratadas como coberturas adicionais. Ou seja, o segurado precisa ter consciência do risco, solicitar a inclusão e aceitar o impacto no custo da apólice (conjunção de fatores difícil de ocorrer sem a orientação do corretor de seguros). Na prática, milhões de residências permanecem protegidas contra incêndio, um risco hoje em dia muito mais raro que eventos climáticos severos.
Essa lógica talvez tenha sido adequada em outro momento histórico. Mas a realidade climática atual impõe uma revisão desse modelo. O desafio é estruturar soluções tecnicamente viáveis, que ampliem a cobertura sem tornar o seguro inacessível para a população.
Essa discussão envolve aspectos atuariais, regulatórios e de política pública. Eventos de grande escala exigem mecanismos de mutualização mais amplos, eventualmente combinando mercado segurador, resseguro internacional e instrumentos de mitigação de risco.
Não se trata apenas de ajustar produtos. Trata-se de reconhecer que a natureza do risco mudou.
O seguro existe exatamente para isso: transformar incerteza em proteção organizada. Quando os eventos extremos passam a fazer parte do cotidiano, a estrutura de proteção precisa evoluir junto.
As chuvas em Juiz de Fora são mais um alerta de que essa discussão não pode continuar avançando apenas no ritmo dos estudos técnicos. Em um país de dimensões continentais e cada vez mais exposto a eventos climáticos severos, proteger o patrimônio das famílias precisa deixar de ser uma exceção contratual e passar a ser parte da solução estrutural.
O mercado tem conhecimento técnico, capacidade operacional e histórico de adaptação. O que falta agora é acelerar o processo.
Porque a próxima chuva forte não vai esperar o fim do debate.

