Entre Tech, Sinistro e Gestão! | 23 de junho de 2026

Carros cada vez mais velozes, motoristas iguais: o desafio da alta performance nas ruas brasileiras

Reprodução: Serpro

Há poucos anos, um carro capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em menos de quatro segundos era uma aparição rara — coisa de colecionador, de evento fechado, de pista. Hoje, esse mesmo desempenho cruza o trânsito de qualquer grande cidade brasileira numa tarde de quinta-feira.

Porsche, Ferrari, Lamborghini, McLaren e Aston Martin, somados às versões mais radicais de BMW, Audi e Mercedes-Benz, deixaram de ser exclusividade de garagens de luxo para integrar a rotina de um segmento crescente de consumidores de alta renda. O Brasil vive, em escala, um fenômeno antes restrito a mercados como Alemanha, Estados Unidos e Emirados Árabes: a popularização dos veículos de altíssima performance.

E, na mesma proporção, cresceram os acidentes envolvendo carros de grande potência — muitos deles com ampla repercussão nacional. A pergunta é inevitável: estamos diante de um problema dos automóveis ou de uma incompatibilidade entre tecnologia, comportamento humano e infraestrutura?

Importamos carros de primeiro mundo para rodar em estradas que não acompanharam a evolução

Um esportivo moderno pode passar de 300 km/h e atingir velocidades urbanas em poucos segundos. O detalhe decisivo é que esses veículos foram concebidos para circular em países com rodovias de alta qualidade, fiscalização eficiente, sinalização padronizada e formação rigorosa de condutores.

No Brasil, a realidade é outra. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), parcela expressiva da malha rodoviária brasileira ainda apresenta problemas de pavimentação, sinalização e geometria das vias. Buracos, remendos, drenagem inadequada e trechos urbanos mal planejados seguem como desafios recorrentes.

O resultado é um descompasso perigoso: carros projetados para ambientes altamente controlados acabam circulando em cenários muito mais imprevisíveis.

O paradoxo da segurança

Nunca os veículos foram tão seguros. Sistemas de assistência à condução (ADAS), frenagem automática de emergência, controle eletrônico de estabilidade, alerta de ponto cego, monitoramento de faixa e câmeras de 360 graus reduziram significativamente o risco de acidentes.

Em paralelo, porém, a potência média dos veículos premium disparou. Há poucos anos, um automóvel com 250 cavalos já era considerado esportivo. Hoje, SUVs de luxo ultrapassam com frequência os 500 cavalos, e alguns modelos beiram a marca dos 1.000.

Aí está o paradoxo: a tecnologia ampliou a capacidade dos veículos, mas a formação dos motoristas permaneceu praticamente a mesma. Avançamos décadas em engenharia e quase nada em preparo de quem está ao volante.

O fator humano continua sendo o principal risco

Diversos estudos internacionais apontam que mais de 90% dos acidentes decorrem, direta ou indiretamente, de falhas humanas. A potência elevada não cria esse problema — ela o amplifica.

Um erro de julgamento cometido a 60 km/h tem consequências completamente diferentes do mesmo erro a 160 km/h. A física é implacável: a energia envolvida em uma colisão cresce com o quadrado da velocidade, e nenhum sistema eletrônico revoga essa conta.

Há ainda um efeito mais sutil e igualmente perigoso: a sofisticação tecnológica pode gerar uma falsa sensação de invulnerabilidade. Freios maiores, pneus mais largos e assistentes eletrônicos ajudam a evitar acidentes, mas não anulam os limites do asfalto, da aderência e do tempo de reação. Quando velocidade excessiva, excesso de confiança e infraestrutura inadequada se encontram, o desfecho costuma ser devastador.

E o seguro, o que tem a ver com isso?

Para o mercado segurador, o crescimento da frota de alta performance não é apenas mais um capítulo de risco — é uma mudança de patamar. Três desafios se destacam.

O primeiro é a severidade dos sinistros.

Um acidente com veículo de luxo raramente se resume a danos materiais simples. Peças importadas, mão de obra especializada, sistemas eletrônicos embarcados e estruturas em fibra de carbono elevam de forma expressiva o valor médio das indenizações. Em muitos casos, o que em um carro popular seria um reparo de chapeação se converte, no esportivo, em perda total — porque o custo de recuperação se aproxima rapidamente do valor segurado.

O segundo é a responsabilidade civil.

Acidentes com veículos de grande potência tendem a produzir impactos mais severos sobre terceiros, tanto materiais quanto corporais. Isso amplia a relevância das coberturas de danos a terceiros e, sobretudo, da responsabilidade civil facultativa (RCF), muitas vezes contratada em limites incompatíveis com o potencial de dano desse tipo de veículo. O segurado de alta renda que protege bem o próprio carro nem sempre protege, na mesma medida, sua exposição perante terceiros.

O terceiro é a precificação baseada em comportamento. Com o avanço da telemetria, dos veículos conectados e dos modelos de seguro por uso (UBI), as seguradoras passam a ter condições cada vez melhores de entender como o veículo é efetivamente conduzido — e não apenas quem é o condutor no papel. Velocidade, padrão de aceleração, frenagens bruscas e horários de circulação deixam de ser estimativas e passam a ser dado. A consequência natural é uma precificação mais individualizada, em que o motorista prudente tende a ser premiado e o comportamento de risco, refletido no preço. Para um segmento de carros potentes, esse pode ser justamente o caminho mais sustentável de mutualismo.

A legislação também precisa evoluir

Há ainda uma reflexão incômoda sobre a forma como o Brasil trata sua frota. Enquanto países desenvolvidos estimulam a renovação tecnológica dos veículos, o sistema tributário brasileiro frequentemente favorece a permanência de automóveis antigos em circulação.

Em diversos estados, carros mais velhos recebem isenção ou redução de IPVA exatamente quando deixam de incorporar os avanços mais recentes de segurança ativa e passiva. O efeito colateral é uma convivência cada vez mais comum entre veículos de última geração e automóveis com décadas de defasagem tecnológica dividindo a mesma faixa — uma assimetria que também se traduz em risco.

O verdadeiro debate não é sobre carros esportivos

Seria simplista responsabilizar os veículos de alta performance pelo aumento da percepção de acidentes. O problema é mais amplo e nasce da combinação de quatro fatores:

– crescimento acelerado da frota de alta potência;
– infraestrutura viária que evolui em ritmo lento;
– formação de condutores pouco compatível com a tecnologia embarcada atual;
– legislação que ainda não acompanha a velocidade das transformações do setor automotivo.

Os carros ficaram exponencialmente mais rápidos, inteligentes e seguros. Mas nossas ruas, nossas estradas e, principalmente, nossa cultura de condução avançam num compasso muito mais lento.

Reflexão final

A verdadeira discussão não deveria ser se os carros esportivos são perigosos. A pergunta correta é outra:

estamos preparando motoristas, estradas, legislação e modelos de seguro para uma realidade em que veículos com desempenho de competição circulam diariamente em ambiente urbano?

Porque, se os automóveis já chegaram ao futuro, boa parte do nosso sistema de mobilidade — e o nosso jeito de pensar o risco — ainda está presa ao passado.

Rodrigo Herzog

Executivo sênior com sólida trajetória no mercado de seguros e serviços financeiros, liderando a transformação digital e a eficiência operacional em grandes players como Porto, Bradesco e Itaú. Especialista em unir tecnologias avançadas (IA, tech e dados) à humanização do atendimento \ serviço, com grande foco na transformação digital buscando a construção de jornadas fluidas para o cliente e fortalecimento da parceria com corretores. Reconhecido como uma das lideranças mais inovadoras do setor (Insurance Innovators 2023 e 2025).

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