O avanço do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) vem impulsionando também o mercado de seguro habitacional no Brasil. Entre 2020 e 2025, o número de operações de crédito para aquisição de imóveis dentro do programa passou de 365.044 para 662.556, enquanto a arrecadação do seguro habitacional saltou de R$ 4,5 bilhões para R$ 8 bilhões no mesmo período.
A expansão está diretamente relacionada à própria estrutura do financiamento imobiliário. O seguro habitacional é obrigatório nessas operações e tem como objetivo proteger o imóvel e o comprador durante a vigência do contrato, que pode chegar a 35 anos. Entre as coberturas estão morte ou invalidez permanente do mutuário e danos ao imóvel decorrentes de eventos como incêndio, raio e explosão.
Além de proteger o patrimônio, o seguro contribui para o equilíbrio do financiamento imobiliário ao preservar a capacidade de pagamento do cliente e atender às exigências da instituição financeira diante de situações que possam comprometer o imóvel ao longo do contrato.
No primeiro semestre de 2026, foram contratadas 473.279 operações pelo Minha Casa, Minha Vida, enquanto a arrecadação do seguro habitacional chegou a R$ 4,3 bilhões. As indenizações também avançaram: passaram de R$ 1,2 bilhão em 2020 para R$ 1,9 bilhão em 2025. Nos seis primeiros meses deste ano, já somavam R$ 1,1 bilhão.
Segundo informações repassadas ao Valor pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), o segmento entrou em um novo patamar a partir de 2021, quando a arrecadação superou R$ 5 bilhões e passou a registrar taxas de crescimento de dois dígitos. O movimento refletiu o avanço do crédito imobiliário, impulsionado por juros mais baixos e pela demanda habitacional no período pós-pandemia.
O maior ritmo de crescimento ocorreu em 2023, quando a arrecadação do seguro habitacional avançou 13,4%, acompanhando a expansão das concessões de crédito. Segundo a CNseg, a desaceleração observada em 2024 e 2025 está mais relacionada ao efeito da base de comparação do que a uma perda estrutural de dinamismo. Em 2025, a arrecadação atingiu R$ 8 bilhões, estabelecendo um novo patamar para o mercado.
A perspectiva é de continuidade desse movimento. A expansão do crédito imobiliário, tanto com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), principal fonte do MCMV, quanto da caderneta de poupança, tende a manter o seguro habitacional aquecido. A maior frequência e intensidade de eventos climáticos também reforçam a necessidade de proteção dos imóveis.
Para 2026, a CNseg projeta crescimento de 11,6% na arrecadação do seguro habitacional. Para 2027, a expectativa também está na casa dos 11%.
O impacto do seguro na vida dos mutuários pode ser percebido na experiência de consumidores do MCMV. A doméstica Namir Machado Nascimento conheceu melhor a proteção ao financiar um apartamento em Águas Lindas (GO), no Entorno do Distrito Federal. O contrato tem duração de 25 anos, com parcelas mensais de R$ 644.
Segundo ela, saber que o financiamento inclui proteção para situações como morte e invalidez trouxe alívio, principalmente pela preocupação de que uma eventual incapacidade pudesse deixar a dívida para o filho, de 17 anos. O contrato também prevê congelamento das prestações por seis meses em caso de desemprego.
“Aos 50 anos consegui realizar o sonho da casa própria. Como não sabemos a situação no futuro, reconheço a importância de ter um seguro”, afirmou.
O caso também mostra o potencial do seguro habitacional como porta de entrada para ampliar a proteção das famílias. No momento da contratação do financiamento, a instituição financeira deve oferecer pelo menos duas opções de apólice, sendo que uma delas precisa ser de uma seguradora sem vínculo com a instituição responsável pelo financiamento. Caso não aceite as alternativas apresentadas, o cliente pode buscar outra seguradora para contratar uma apólice individual.
Embora o mercado seja tradicionalmente explorado por seguradoras ligadas a bancos, há espaço para companhias independentes ampliarem sua participação por meio de parcerias com canais de distribuição. Para Abel Colaço, diretor executivo e sócio da consultoria BCG, a capacidade de integração, a agilidade e a experiência do cliente estão entre os fatores que podem diferenciar as empresas.
Outro desafio é aproveitar o relacionamento criado com o segurado para oferecer outros produtos de proteção. Esse movimento de cross-sell já aparece, por exemplo, na estratégia da Caixa Seguridade, que busca apresentar ao cliente a possibilidade de contratar um seguro residencial após a quitação do financiamento.
Diferentemente do habitacional, o seguro residencial é voluntário e pode proteger tanto a estrutura do imóvel quanto bens como móveis e eletrodomésticos. Ainda assim, sua penetração permanece baixa: apenas 17% das residências brasileiras contam atualmente com algum tipo de seguro residencial, segundo estimativa da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg).
No primeiro semestre, o volume de emissões de seguro habitacional pela Caixa Seguridade cresceu 13,5%, para R$ 2,21 bilhões. Já os seguros residenciais somaram R$ 561,7 milhões, alta de 2,5% na comparação anual.
As seguradoras também vêm buscando ampliar a percepção de valor desses produtos por meio de serviços que podem ser utilizados no cotidiano, mesmo quando não há um sinistro. A estratégia inclui assistências como chaveiro e pequenos reparos domésticos, criando pontos de contato mais frequentes com o consumidor.
“O que o mercado aprendeu nos últimos anos é que o seguro precisa ir além da indenização do bem. Isso levou as companhias a revisitar o que oferecem, por exemplo, em termos de assistências”, afirma Leticia Doherty, vice-presidente da comissão habitacional da FenSeg.
Para a executiva, o desafio é mostrar ao consumidor que a proteção não se limita ao momento em que ocorre um evento coberto. “O ganho ocorre quando a seguradora mostra que o seguro não serve apenas para o momento do sinistro”, afirma.
O Minha Casa, Minha Vida foi lançado em 2009 pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2020, durante o governo Jair Bolsonaro, o programa foi substituído pelo Casa Verde e Amarela. Com o retorno de Lula à Presidência, em 2023, a iniciativa foi reformulada e retomou o nome original.

