Notícias | 14 de julho de 2026 | Fonte: O Globo

‘Os planos de saúde não vão quebrar’, diz diretor-executivo da FenaSaúde

“Os planos de saúde não vão quebrar”, afirma o diretor-executivo da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), Bruno Sobral, colocando um ponto final em uma ameaça frequentemente feita por executivos do setor nos últimos anos. Ele ressalta, no entanto, que também é equivocada a ideia de que as operadoras trabalham com margens de lucro exageradas. Segundo Sobral, as margens são reduzidas tanto no Brasil quanto no exterior, como mostra um estudo encomendado à LCA Consultoria que compara os resultados das operadoras brasileiras com os de empresas da Austrália, Canadá e Estados Unidos. O Chile aparece como exceção, com rentabilidade muito superior à média dos demais países.

Um mês após a divulgação de um lucro líquido de R$ 6 bilhões pelas operadoras de planos de saúde médico-hospitalares no primeiro trimestre — o segundo maior já registrado para um primeiro trimestre na série histórica da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), iniciada em 2018 — Sobral reconhece que houve recuperação das margens. Ele alerta, porém, que a aceleração dos custos exige uma discussão sobre o futuro do setor, especialmente em relação à incorporação de novas tecnologias e à capacidade de pagamento da população.

— Nem as margens são excessivas, nem os planos de saúde vão quebrar. As margens são baixas, mas adequadas para a remuneração do setor. O problema é a aceleração dos custos, impulsionada pela nova dinâmica de incorporação de tecnologias a partir de 2020. Isso terá de ser discutido com a sociedade porque, no fim, acaba sendo repassado para as mensalidades. O resultado é que a cobertura da saúde suplementar está estagnada há cerca de uma década, em torno de 25% da população. Apesar do aumento da renda, os preços dos planos cresceram ainda mais, e muitas pessoas continuam sem conseguir contratar esse serviço — afirma Sobral.

Outro desafio apontado pelo diretor-executivo da FenaSaúde é a judicialização. Segundo dados da ANS, no acumulado de 12 meses encerrado no primeiro trimestre de 2026, as despesas relacionadas a decisões judiciais ultrapassaram pela primeira vez R$ 5 bilhões, alta de quase 11% em relação ao acumulado de 2025.

— O aumento das demandas judiciais está associado, entre outros fatores, ao crescimento da base de beneficiários, à maior utilização dos serviços, à ampliação do rol de procedimentos da ANS e à crescente busca pela via judicial para obtenção de tratamentos e tecnologias que não são cobertos pelas mensalidades pagas pelos beneficiários. Esses tratamentos passam por processos específicos de avaliação e incorporação, que necessariamente precisam considerar que os recursos são limitados e que seu encarecimento onera todo o sistema — diz o executivo.

Dados do Anuário da Justiça da Saúde Suplementar 2025, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que publicamos aqui no blog, mostram que, em 2025, os três principais temas das ações envolvendo planos de saúde foram tratamentos médico-hospitalar, responsável por 165.534 processos; reajuste contratual, com 58.098 ações; e fornecimento de medicamentos, com 50.652 processos. Na avaliação de especialistas em direito à saúde que analisam o tema sob a ótica do consumidor, esses números indicam que as operadoras têm criado dificuldades para autorizar tratamentos corriqueiros e previstos em contrato. Sobral refuta essa interpretação.

Em um ponto, porém, o executivo e os especialistas em defesa do consumidor concordam: é preciso aprimorar a gestão da saúde pelas operadoras. Trata-se de uma discussão antiga, que avançou pouco e cujo principal entrave hoje, na avaliação de Sobral, é a falta de interoperabilidade entre os sistemas das operadoras, hospitais, laboratórios, clínicas e consultórios.

— A falta de integração dos dados leva à repetição desnecessária de exames, à perda do histórico do paciente e dificulta a identificação da melhor jornada de cuidado. Os dados deveriam pertencer ao paciente, que decidiria se deseja compartilhá-los com o plano de saúde para receber orientação. Os sistemas precisam conversar entre si para garantir um atendimento mais eficiente e evitar custos desnecessários — afirma o diretor-executivo da FenaSaúde.

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