A nova arquitetura de crédito e financiamento do agronegócio brasileiro passa pelo fortalecimento da gestão de riscos e por uma participação mais estratégica do seguro rural. O tema esteve no centro do painel “A nova arquitetura de crédito, risco e financiamento no Agro”, realizado em 21 de outubro, durante o AgTech Meeting 2026, em Piracicaba (SP). Na oportunidade, Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo; Mayra Theis, sócia e líder de Agribusiness da PwC Brasil; Guilherme Soria Bastos Filho, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV Agro, e Giuliano Gioia, diretor de Assuntos Regulatórios da Sovos, avaliaram as possibilidades de diversificação das fontes de recursos e os mecanismos necessários para dar mais previsibilidade às operações do setor.
O debate ocorre em um cenário no qual instrumentos privados vêm ampliando as alternativas disponíveis ao agronegócio. Marcos regulatórios construídos ao longo das últimas décadas favoreceram instrumentos como Cédula de Produto Rural (CPR), Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Fiagro, trazendo novas fontes de recursos e investidores para o setor.
Ao mesmo tempo, a diversificação torna a análise de risco mais relevante. Em uma atividade exposta a ciclos de preços, eventos climáticos e diferentes realidades produtivas, dados, tecnologia e seguros passam a compor uma estrutura destinada a reduzir incertezas e aumentar a transparência nas relações entre produtores, financiadores e demais agentes da cadeia.
Pressão sobre o crédito aumenta importância da gestão de riscos
Dados de levantamentos da FGV Agro indicam que o Valor Bruto da Produção Agropecuária é estimado em R$ 1,42 trilhão, enquanto os instrumentos de crédito e proteção não avançaram no mesmo ritmo da escala alcançada pelo agronegócio.
Os estudos mostram ainda um ambiente de maior pressão financeira sobre o produtor. Em julho de 2026, R$ 207 bilhões de um estoque de R$ 882 bilhões de crédito rural, o equivalente a 23,5%, estavam em situação considerada problemática, incluindo operações renegociadas, inadimplentes, prorrogadas e com atraso. Em 2025, o agro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56%.
É nesse ambiente que ganha força a discussão sobre uma arquitetura financeira capaz de combinar crédito, dados, garantias e seguros. Segundo a análise apresentada pelo FGV Agro, quatro pontos ajudam a explicar os desafios atuais: assimetria de informações, baixa proteção securitária, lentidão na execução de garantias e instabilidade orçamentária.
Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo, destacou durante o evento a relação entre a nova legislação do seguro rural e o acesso ao financiamento.
“O painel foi uma ótima oportunidade de debater as perspectivas de diferentes especialistas sobre nova lei do seguro rural e como isso pode impactar na tomada de crédito pelo produtor, discutindo bastante como mais valor pode ser gerado para os clientes e como desenvolver mais o seguro agrícola, para que, cada vez mais essa seja uma melhor solução para os produtores.”
Seguro rural ainda tem espaço para avançar
Os números apresentados pela FGV Agro também evidenciam o desafio de ampliar a proteção. A área coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) passou de 7,1 milhões de hectares em 2024 para 3,2 milhões em 2025. Entre 2021 e 2025, o número de apólices subvencionadas caiu 72%.
Esse movimento acontece justamente quando a necessidade de mecanismos de proteção ganha relevância na estrutura financeira do agronegócio.
O cenário, porém, ganhou um novo componente institucional com a Lei nº 15.526/2026, sancionada em 29 de setembro e publicada no dia seguinte. A legislação aperfeiçoou o marco legal do seguro rural, reconheceu expressamente o seguro rural como instrumento das políticas agrícola e de seguros e permitiu que a apólice contratada pelo produtor integre o conjunto de garantias de uma operação de crédito rural.
A nova lei também alterou regras do PSR e reformulou a estrutura do fundo destinado à cobertura suplementar dos riscos do seguro rural. Entre outras medidas, prevê a participação da União como cotista e possibilita a participação de seguradoras, resseguradoras, empresas da cadeia do agronegócio e cooperativas de produção agropecuária.
Outro ponto que aproxima diretamente seguro e financiamento é a possibilidade de as operações de crédito rural vinculadas a seguro receberem tratamento diferenciado. O novo marco prevê que o seguro possa integrar as garantias da operação, observadas determinadas condições.
Crédito privado e uma nova infraestrutura de confiança
Nesse contexto, os especialistas avaliaram que a construção de uma estrutura mais eficiente para o agronegócio depende de uma espécie de “infraestrutura de confiança”, apoiada em dados, garantias e seguro, capaz de aumentar a previsibilidade das operações.
Durante o painel, Guilherme Soria Bastos Filho, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV Agro, apresentou pontos do estudo “A Transformação do Financiamento do Agronegócio Brasileiro” e destacou alguns dos pilares necessários para essa estrutura.
“Essa é uma arquitetura que está pautada em seguro, a gestão de risco dentro das propriedades agrícolas, a transparência das informações, a plurianualidade dos orçamentos que precisam para dar previsibilidade para todas as nossas operações e a questão importante que é a execução, a responsabilidade com relação aos contratos e a execução de garantias.”
Segundo Bastos, uma participação maior do mercado privado pode contribuir para um ambiente mais sustentável de financiamento ao setor agropecuário.
“Uma forma de você poder ter um ambiente propício para a entrada do mercado, você dependerá cada vez menos dos recursos governamentais e, com isso, você terá um ambiente mais próspero e mais sustentável.”
Mayra Theis, sócia e líder de Agribusiness da PwC Brasil, ressaltou que o debate ocorre em um momento de transformação na estrutura de financiamento do agronegócio. “Um painel extremamente importante para o momento que o Brasil vive em relação à sistemática de crédito no agro e às tendências para o futuro.”
Para o mercado de seguros, a transformação abre espaço para uma atuação que vai além da transferência tradicional de riscos. Conforme as fontes privadas ganham participação no financiamento, financiadores e investidores passam a demandar uma compreensão mais ampla da exposição ao risco e da capacidade das operações de atravessar eventos adversos, aumentando a relevância da gestão preventiva.
Para os corretores de seguros, o movimento reforça a oportunidade de uma atuação mais consultiva junto aos produtores e empresas da cadeia produtiva do agronegócio. A combinação entre seguro, gestão de riscos, crédito, tecnologia e dados tende a ocupar espaço crescente nas decisões financeiras do setor, aproximando a proteção securitária da própria estratégia de financiamento das atividades rurais.

