Notícias | 28 de agosto de 2026 | Fonte: CQCS l Ana Mello

Incêndio em veículos elétricos coloca gestão de riscos no radar do mercado de seguros

Reprodução: Redes Sociais

O crescimento acelerado da frota de veículos eletrificados no Brasil começa a transformar não apenas a mobilidade urbana, mas também a forma como o mercado segurador enxerga os riscos associados a essa nova tecnologia. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que, no primeiro semestre de 2026, foram vendidos 215.023 veículos leves eletrificados no País, um avanço de 125% em relação ao mesmo período do ano anterior. Com isso, de cada 100 veículos leves comercializados no Brasil entre janeiro e junho, 16 já eram eletrificados.

O avanço também é expressivo no transporte coletivo. Segundo a ABVE, os emplacamentos de ônibus elétricos cresceram 92,5% no primeiro semestre de 2026, alcançando 589 unidades, contra 306 registradas no mesmo período de 2025. Apenas a cidade de São Paulo ampliou sua frota para 1.759 ônibus eletrificados, consolidando-se como principal polo da eletrificação do transporte público brasileiro.

Esse cenário amplia a necessidade de discussão sobre prevenção, combate a incêndios e gerenciamento de riscos relacionados às baterias de íons de lítio, tema que tem ganhado relevância para seguradoras, corretores, empresas de logística, operações de transporte e administradores de condomínios.

Foi justamente com esse foco que a Sompo promoveu, em 7 de agosto, um treinamento prático sobre incêndios envolvendo baterias elétricas, iniciativa que integrou o Workshop de Gerenciamento de Riscos realizado pela companhia. A atividade, desenvolvida em parceria com a Associação Brasileira de Gerenciamento de Riscos (ABGR), a Work Fire e outros especialistas do setor, encerrou três dias de debates técnicos voltados à evolução dos riscos emergentes enfrentados pelo mercado.

Durante o treinamento, os participantes acompanharam uma simulação real de incêndio em um veículo equipado com bateria de lítio, permitindo observar na prática o comportamento desse tipo de ocorrência e os protocolos mais adequados de mitigação.

Segundo Adailton Dias, diretor executivo da Sompo, a iniciativa acompanha uma transformação que já está presente em diferentes segmentos da economia. “Hoje em todo lugar se tem bateria elétrica. Então ter essas experiências, saber como trabalhar, conduzir, trabalhar com o Corpo de Bombeiros, quais são os procedimentos que devem ser tomados, é muito importante”, afirma.

O executivo destaca que a exposição ao risco vai muito além dos veículos em circulação. A eletrificação já está presente em operações de importação, transporte, armazenagem e em ambientes residenciais, exigindo uma nova abordagem de prevenção. “Temos grandes clientes que importam 5, 7 mil veículos, onde temos mais de 250 milhões de dólares embarcados. Temos clientes onde há veículos parqueados também com bateria elétrica. Temos clientes onde dentro dos apartamentos, dos condomínios, também tem bateria elétrica”, explica.

Para os corretores de seguros, a expansão da eletromobilidade representa tanto uma oportunidade de negócios quanto um novo desafio consultivo. Além da análise tradicional dos riscos patrimoniais e operacionais, torna-se necessário avaliar aspectos relacionados ao armazenamento, transporte, recarga e destinação de baterias, bem como os protocolos de emergência em caso de incidentes.

A Sompo vem ampliando essa atuação por meio de sua estrutura própria de gerenciamento de riscos. Segundo Dias, a companhia mantém equipes especializadas que atuam em conjunto com corretores, clientes e parceiros técnicos para desenvolver estratégias de prevenção adequadas a esse novo cenário.

Um dos principais pontos debatidos durante o workshop foi justamente a complexidade dos incêndios envolvendo baterias de lítio. Diferentemente dos incêndios convencionais, o risco pode permanecer mesmo após a extinção das chamas.

Marcelo Valle, diretor da MValle Consultoria, explica que uma bateria danificada pode permanecer instável por longos períodos. “O problema é como eu gerencio essa bateria. Quando eu apago o fogo, essa bateria fica instável o suficiente para poder reiniciar horas, dias, semanas, até meses depois”, alerta.

Segundo ele, o desafio envolve toda a gestão pós-incidente, desde o isolamento do veículo até o monitoramento da bateria após o controle inicial do incêndio. “A bateria não é um problema, ela é a solução. Até que ela vem chamando a atenção de muitos outros problemas tecnológicos que estavam caminhando sem percepção”, afirma.

Durante a demonstração prática foram apresentadas técnicas específicas para o combate a incêndios em veículos elétricos, incluindo o uso de agentes encapsulantes de alta capacidade de resfriamento e métodos de inoculação de água diretamente na bateria para acelerar sua estabilização.

Para Airton Reis, gerente técnico e operacional do Centro de Treinamento da Work Fire, iniciativas como essa ajudam a preparar o mercado brasileiro para uma realidade que tende a se expandir rapidamente nos próximos anos. “Hoje presenciamos um grande treinamento realizado em parceria com a Sompo, onde foi feita a deflagração de uma bateria de lítio dentro de um veículo automotor. Para nós é muito expressivo esse evento. Essa parceria com a Sompo tem somado a nós recursos para que a gente possa desenvolver as técnicas e táticas adequadas para o combate a incêndio em veículos elétricos”, destaca.

A programação também foi elogiada pelos profissionais que acompanharam as atividades. José Roberto Almeida, analista de seguros da Honda Seguros, ressaltou a combinação entre conteúdo técnico e demonstração prática. “As palestras foram muito boas e o campo prático com o treinamento de incêndio do veículo também proporcionou muito conhecimento”.

Já Márcia Ribeiro, Assessora do Conselho e Diretoriada ABGR, destacou o potencial de troca entre seguradoras, segurados, consultores e especialistas. “O evento proporcionou para cada um de nós um alto nível de debate, de conhecimento, de troca e muito network para futuros trabalhos”.

Ela também observou que a demonstração prática evidenciou riscos que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano das operações. “A gente não tem noção dos riscos que a gente passa e como outras coisas precisam ser tratadas. Vamos sair daqui com muita informação, mas também bastante dúvidas para se debruçar sobre o trabalho”, ressalta.

Com a frota brasileira de veículos eletrificados em expansão acelerada e a eletromobilidade ganhando escala tanto no transporte individual quanto no coletivo, especialistas apontam que a gestão de riscos envolvendo baterias de lítio tende a se tornar um tema cada vez mais estratégico para corretores, seguradoras e empresas. Nesse contexto, iniciativas como a promovida pela Sompo reforçam a importância da prevenção como elemento fundamental para a proteção de pessoas, patrimônios e operações.

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