O mercado de saúde suplementar vem passando por transformações impulsionadas por mudanças no perfil dos beneficiários, avanços tecnológicos e desafios operacionais. Nesse cenário, as despesas assistenciais permanecem entre os principais pontos de atenção do setor. Segundo a FenaSaúde, esses gastos cresceram 1,1% em 2025, alcançando R$ 307,5 bilhões. A evolução dos custos evidencia um desafio central: como conciliar a sustentabilidade financeira das operadoras com a qualidade e a continuidade da assistência prestada aos beneficiários?
Bruno Sobral, diretor-executivo da FenaSaúde, explica que o avanço das despesas assistenciais resulta de uma combinação de fatores estruturais que pressionam os custos da saúde suplementar. Entre eles, estão a inflação médica, historicamente superior à inflação geral, o envelhecimento populacional, o aumento da frequência de utilização dos serviços após a pandemia e o crescimento da judicialização. “Tudo isso faz com que a conta da saúde fique cada vez mais cara para todo o ecossistema. Como o funcionamento do setor é baseado nos recursos da coletividade, todos acabam pagando essa conta”, detalha.
Nesse contexto, o mutualismo tem papel fundamental na saúde suplementar. Com o aumento das despesas assistenciais, a pressão sobre os custos se reflete nos reajustes das mensalidades, tornando os planos menos acessíveis à população. Para preservar a sustentabilidade do sistema, Sobral explica que a FenaSaúde defende medidas como o fortalecimento do combate a fraudes e desperdícios, o uso racional dos recursos, o aprimoramento das regras de incorporação de tecnologias e a adoção de modelos de remuneração baseados em valor e eficiência, em vez de priorizar apenas a quantidade de procedimentos realizados.
Na avaliação de Josafá Ferreira Primo, proprietário da Salagah Corretora de Seguros, o aumento das despesas também está relacionado à utilização inadequada dos serviços e ao desperdício de recursos. “São procedimentos desnecessários, internações evitáveis, falta de coordenação e fraude”, aponta.
Entre as medidas que podem contribuir para o controle dos gastos, Ferreira destaca a adoção de modelos de remuneração vinculados a resultados e à qualidade assistencial, a avaliação especializada de procedimentos eletivos, o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas e a redução de intervenções desnecessárias.
O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) também é apontado pelo corretor como uma estratégia importante para melhorar a utilização dos serviços. Segundo ele, parte dos custos está relacionada à procura por pronto-socorros para situações que poderiam ser resolvidas em outros níveis de atendimento, como sintomas leves e consultas de rotina. “É caro, fragmentado e não resolve de verdade. A solução é a Atenção Primária à Saúde (APS) resolutiva, médico de referência, acesso rápido, vínculo real. Reduz até 40% as idas ao pronto-socorro e 18 à 25% internações evitáveis”, explica.
Nesse cenário, o corretor de seguros pode assumir uma atuação mais estratégica na gestão da saúde corporativa. Para Josafá, o trabalho desse profissional deve ir além da busca pelas melhores condições comerciais, contribuindo para identificar oportunidades de prevenção, melhorar a utilização do plano e reduzir desperdícios. “Esta jornada transforma o corretor de um simples vendedor em um gestor de saúde corporativa”, afirma. “Diante dos custos crescentes das operadoras, o foco muda da cotação anual de apólices para o controle preventivo do sinistro e do desperdício”, completa.
Apesar da importância dessas iniciativas para melhorar a eficiência do sistema, o desafio da saúde suplementar também envolve garantir que os planos permaneçam acessíveis às famílias e às empresas. Sobral ressalta que não é possível estabelecer previamente um limite para o crescimento das despesas, mas alerta para os efeitos de um ambiente legislativo e regulatório que, em sua avaliação, favorece a elevação contínua dos custos sem necessariamente gerar valor proporcional aos beneficiários. Esse cenário, segundo ele, compromete tanto a sustentabilidade do sistema quanto a capacidade financeira de quem contrata os planos.
“O encarecimento dos produtos chega para todos, tornando os produtos menos acessíveis. Nosso objetivo é justamente tornar os planos de saúde mais acessíveis para uma parcela cada vez maior da população”, conclui o diretor-executivo da FenaSaúde.

