O avanço dos veículos eletrificados no Brasil está mudando a forma como seguradoras avaliam riscos, calculam preços e estruturam coberturas. Um dos principais pontos de atenção é a bateria de alta voltagem, componente que concentra parte relevante do valor do veículo e pode elevar significativamente o custo de um reparo após colisões.
De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), em 2025, foram vendidos 223.912 veículos leves eletrificados no país, resultado recorde e 26% superior ao registrado no ano anterior. Desse total, 181.542 eram modelos plug-in. Os híbridos plug-in responderam por 101.364 unidades, enquanto os veículos totalmente elétricos chegaram a 80.178 emplacamentos. Em 2026, o mercado manteve ritmo acelerado. Somente no primeiro semestre, o Brasil contabilizou 215.023 emplacamentos de veículos leves eletrificados, volume próximo de todo o resultado alcançado em 2025. Entre janeiro e junho, os eletrificados representaram 15,8% das vendas de veículos leves no país. Apenas em junho, essa participação chegou a 18,3%.
A expansão da frota cria um cenário diferente para o mercado segurador. Nos automóveis movidos a combustão, boa parte do custo de manutenção e reparação está concentrada no motor, câmbio e componentes mecânicos. Nos elétricos, a bateria assume papel central na análise de eventuais danos. Segundo a Federação Nacional de Seguros Gerais, a FenSeg, o seguro para veículos eletrificados precisa considerar fatores como maior custo de reparação, disponibilidade limitada de determinadas peças, necessidade de mão de obra especializada e elevado valor dos conjuntos de baterias.
O diretor de Produtos da Bradesco Auto/RE, Saint’Clair Lima, informou quais foram as principais mudanças percebidas pela seguradora, na análise de risco do seguro auto. “A expansão da mobilidade elétrica representa uma evolução natural do mercado automotivo e, consequentemente, do mercado de seguros. À medida que os veículos incorporam novas tecnologias, sistemas eletrônicos mais sofisticados e diferentes configurações mecânicas, a análise de risco também passa a considerar essas características específicas. Mais do que uma mudança de conceito, trata-se de uma evolução dos modelos de avaliação, baseada em dados, experiência e acompanhamento constante da frota segurada. É precisooferecer uma proteção adequada ao perfil de cada veículo e garantir uma boa experiência ao segurado”.
Em alguns casos, uma colisão que seria considerada de menor gravidade em um automóvel convencional pode exigir uma inspeção mais detalhada em um elétrico. Impactos na parte inferior do veículo, por exemplo, podem atingir a estrutura que protege a bateria. Nessas situações, a avaliação técnica é essencial para verificar a extensão dos danos, a possibilidade de reparo e o custo necessário para devolver o veículo às condições adequadas de segurança. As próprias apólices também começam a se adaptar. Algumas seguradoras já trabalham com coberturas específicas para baterias de alta voltagem, falhas em sistemas eletrônicos e serviços de assistência relacionados à recarga.
O transporte dos veículos também exige cuidados adicionais. Procedimentos inadequados durante o reboque podem causar danos ao sistema de tração elétrica, o que obriga empresas de assistência a adotar protocolos específicos para esse tipo de automóvel. Outro ponto de atenção está nas oficinas. A manutenção de veículos eletrificados exige profissionais capacitados para trabalhar com sistemas de alta tensão, além de equipamentos e procedimentos próprios de segurança. A oferta ainda limitada de oficinas especializadas e a eventual demora na reposição de peças podem aumentar o tempo de reparo e o valor dos sinistros. A diversificação da frota amplia ainda mais esse desafio
Saint’Clair Lima reitera que O objetivo é manter um equilíbrio entre uma precificação adequada ao risco e uma proteção compatível com as necessidades dos clientes. “O crescimento de 67% nas contratações de seguros para veículos elétricos registrado pela companhia no primeiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior, demonstra que o mercado vem amadurecendo e que as seguradoras estão preparadas para acompanhar essa transformação, oferecendo soluções cada vez mais aderentes ao novo cenário da mobilidade”.
Nesse cenário, preço das peças, disponibilidade de componentes, valor da bateria, tecnologia embarcada e capacidade da rede de assistência ganham peso na definição das apólices. Com o crescimento dos carros elétricos no país, o mercado segurador entra em uma nova fase. Mais do que adaptar coberturas, seguradoras, oficinas e fabricantes terão de aprimorar procedimentos de avaliação, diagnóstico e reparo.

