Notícias | 14 de fevereiro de 2007 | Fonte: Valor Econômico

Bancos criam CDC de carro inspirado em leasing operacional

A concorrência para reduzir os valores das parcelas de financiamentos de automóveis está levando os bancos de montadora a criar linhas semelhantes ao leasing operacional, raramente usado no país.

No leasing operacional, a finalidade não é comprar o bem no fim do contrato. Há um resíduo alto e as prestações têm a função de aluguel. No Brasil esse tipo de arrendamento nunca foi popular, principalmente entre pessoas físicas.

A estratégia das montadoras é oferecer algo muito semelhante, mas utilizando como instrumento o Crédito Direto ao Consumidor (CDC), no qual o carro fica em nome do cliente. O resíduo é acertado no final e, para reduzir surpresas, o o cliente já sabe o valor da parcela final de antemão porque a linha é prefixada. “É um produto novo entre bancos de montadora e que só agora pode ser vendido por causa da queda da taxa de juros. Juros maiores tirariam a competitividade das parcelas intermediárias. São operações que embutem um risco maior para o banco”, diz o presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras de Montadoras (Anef). Luiz Montenegro diz que os contratos inspiram-se no leasing operacional, popular nos EUA e Canadá.

A mais recente investida para popularizar a modalidade é do banco GMAC, ligado à General Motors, cujo controle foi vendido no ano passado para um consórcio que inclui o Cerberus Capital Management (Citigroup) e Aozora Bank. O produto já existe nas concessionárias GM desde 2004, mas em janeiro o GMAC lançou uma campanha publicitária para aumentar a demanda. Com uma carteira de 25 mil contratos, chamados de “Chevrolet Sempre”, o produto já representou 15% dos novos financiamentos em janeiro. O tema da publicidade, “Sempre de Carro Novo”, apela para a possibilidade de trocar o carro por um novo no fim do contrato. Outros bancos de montadora têm produtos semelhantes. A filial da Ford Credit (Bradesco) vende na rede de concessionárias o “Escolha Certa” com as mesmas características, e o Banco Fiat (Itaú), “Troca Inteligente” (com o slogan “Você Sempre de Carro Novo”).

Ao jogar um resíduo alto para o fim do contrato, os bancos de montadora reduzem o valor das parcelas intermediárias abaixo de um contrato de financiamento normal. A parcelas saldam percentual menor do principal, quitando antes os juros.

O Valor consultou concessionárias e locadoras de veículos para comparar os custos. Uma concessionária GM em São Paulo simulou um “Chevrolet Sempre” para um Meriva zero quilômetro, com valor à vista de R$ 46 mil. Com uma entrada de R$ 9.360 e 24 parcelas fixas de R$ 1.360,95, o resíduo será de R$ 23.400. Num CDC normal, o valor da parcela em 24 meses é de R$ 2.245,28, sem resíduo. A taxa de juros do produto para São Paulo é de 1,78% ao mês.

A prestação fica abaixo do custo de um aluguel. Consultas a locadoras chegaram a um valor mínimo de R$ 2 mil de aluguel mensal por um Meriva novo (com compromisso de alugar por um ano), com o seguro incluído (franquia de R$ 2.500) e limite de 3 mil quilômetros por mês.

Nos CDC parecidos com leasing, os bancos oferecem três alternativas no fim do contrato. Se quiser comprar o carro, o cliente pode pagar o resíduo à vista ou refinanciá-lo em 48 meses. Se a intenção for trocá-lo, a concessionária recompra o veículo com um valor próximo de mercado, descontando o resíduo. No caso do GMAC, financiamento de um ano garante recompra por no mínimo 70% do valor de mercado, dois anos, no mínimo 60% e três anos, no mínimo 40%. Mas o presidente do banco GMAC, Moacir Cóssia, diz que na carteira atual as concessionárias têm avaliado os carros acima dos valores mínimos. Em caso de troca, o cliente recebe o valor do carro descontado do resíduo, e usa essa diferença como entrada num carro novo.

Confirmando a semelhança com um leasing, o contrato do CDC faz exigências maiores do comprador. A quilometragem do veículo é limitada a 20 mil por ano e para manter a garantia de recompra o proprietário precisa ficar em dia com as revisões feitas em concessionárias. Mas há diferenças: no leasing o seguro é obrigatório porque o veículo pertence à arrendadora, o que não ocorre no CDC.

“Criamos o produto incentivando uma mudança cultural, na qual o cliente valoriza mais o uso do que a propriedade do veículo”, diz o diretor comercial do GMAC, Gunnar Murillo. Para estimular a compra de seguro, que não pode ser obrigatória na venda por CDC, a GM fechou contrato com a Indiana Seguros e faz a apólice pela vigência do contrato. O valor do seguro é incluído no valor financiado pelo Chevrolet Sempre, e a taxa de juros é menor do que num parcelamento de uma apólice independente.

Os bancos não revelam os parâmetros de quanto de juros e principal deve ser coberto em cada parcela. No limite, poderia haver parcelas quitando apenas os juros, o que deixaria todo o principal para o final do contrato. O exemplo extremo ocorreria se o cliente pagasse 50% do carro à vista e colocasse 50% de resíduo no fim do contrato. “Não fazemos isso. O objetivo é sempre amortizar algum principal na parcela”, diz o presidente do GMAC.

Em mercados maduros, financiamentos com pagamento só de juros por um período existem, mas são concedidos apenas por bancos interessados em mercados de alto risco e rentabilidade.

O presidente da Anef diz que além da modalidade mais comum nas concessionárias, a de resíduo no fim do contrato, há outros tipos de financiamento flexível. As parcelas maiores (chamadas de parcelas-balão) podem ser colocadas no meio do contrato, como “intermediárias” de imóveis.

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