Notícias | 16 de setembro de 2003 | Fonte: O Estado de S.Paulo

Seguros, o setor anda de lado

O primeiro semestre de 2003 não pode ser considerado um grande momento para a atividade seguradora nacional. E o dado triste é que o segundo semestre que tradicionalmente é melhor deverá ser no máximo igual. Nem poderia ser diferente, já que seguro é atividade de apoio e, portanto, anda atrás da economia e da realidade social do país.
Ao longo dos primeiros seis meses do ano o Brasil ficou ciscando, à beira de uma recessão que depois da diminuição dos juros poderá ser relativamente breve. O resultado foi a queda das vendas de produtos duráveis e semiduráveis, além da estagnação da indústria da construção civil, notadamente na área das obras públicas.
Como se não bastasse, o índice de desemprego está em patamar extremamente elevado e o medo de perder o emprego ronda os trabalhadores em geral, fazendo-os deixar de comprar e preservar a parca poupança familiar para uma situação mais delicada.
Finalmente, mas quem sabe mais importante do que todo o resto, as taxas de juros reais e a carga tributária dificultam o aquecimento econômico e a retomada do crescimento ainda este ano.
Neste cenário, não poderia ser diferente. A atividade seguradora não poderia crescer, como de fato não cresceu, além de não ter qualquer indicador de um segundo semestre melhor. Começando pelo seguro de automóvel, que ainda é a maior carteira do mercado, a queda vertiginosa da venda de carros novos afetou sobremaneira o desempenho das seguradoras. Normalmente, quem faz seguro de veículo é o dono de carros zero até quatro anos de idade. Depois deste tempo o seguro fica caro demais e a indenização pode não compensar a sua contratação.
Ora, os carros vão ficando mais velhos dia após dia, e, portanto, vão deixando de ser segurados. Numa economia aquecida, a venda de carros novos supre com vantagem a saída dos carros velhos, inclusive porque o seguro do carro novo, ainda que percentualmente mais barato, gera sempre um prêmio mais alto, o que faz a seguradora, que trabalha com um custo médio e não com valores absolutos para cada veículo, gerar o faturamento necessário para pagar as indenizações, seus custos e ainda ganhar dinheiro.
Quando a economia entra num período como o atual, a venda de carros novos despenca e com isso o faturamento dos seguros de automóveis também cai. Em contrapartida, os custos da seguradora permanecem no mínimo estáveis, piorando a relação de rentabilidade, porque diminui seu ganho e mantém a despesa em patamar pelo menos semelhante ao anterior.
O resultado só não foi pior porque as altas taxas de juros permitiram que o ganho financeiro compensasse o desempenho industrial da carteira. Todavia, como as taxas de juros começam a ceder, este cenário não deve se repetir no segundo semestre. E isso deve afetar ainda mais uma carteira que já não vem bem, pressionada pela queda das vendas e pelos custos administrativos.
Por outro lado, a queda do poder aquisitivo da população afeta diretamente a contratação de todos os outros tipos de seguros e produtos de previdência privada, já que os primeiros deixam de ser contratados, quer porque não se fazem novos negócios para serem segurados, quer porque não se tem dinheiro para isso, e, os segundos, têm seu ritmo desacelerado porque não há poupança excedente para ser imediatamente investida num plano de complementação de aposentadoria.
Mesmo assim, os PGBL’s e os VGBL’s foram os produtos que cresceram no primeiro semestre, ainda que por conta das vantagens financeiras de curto prazo. O problema é que eles não estão sendo rentáveis para as seguradoras, especialmente as não ligadas a bancos, que não possuem um canal de venda barato como as redes de agências.
Dentro deste horizonte cinza, a mola do lucro é a capitalização, que, por ter uma parte de poupança e outra de sorteio, pela segunda, atrai os compradores, já que é típico do brasileiro, em épocas de crise, jogar mais, buscando a sorte grande, capaz de arrumar-lhe a vida.
Antonio Penteado Mendonça

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