Notícias | 24 de novembro de 2025 | Fonte: CQCS | Livia Alves

Seguros e tecnologia moldam o futuro do agronegócio brasileiro em meio à crise climática na Casa do Seguro

Casa do Seguro, durante a COP30, nesta quinta-feira (20) reuniu especialistas de diversas frentes do agronegócio, do mercado de seguros e da academia para discutir as urgências climáticas, tecnológicas e produtivas que desafiam o campo brasileiro. Com falas contundentes e análises profundas, os participantes defenderam que o seguro agrícola, aliado à inovação, será decisivo para garantir a segurança alimentar global e a resiliência da produção nacional.

A abertura ficou marcada pela mensagem de esperança e realismo de Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP. Ele destacou que a atividade agrícola é, por natureza, uma profissão de risco e que o seguro é o principal instrumento de equilíbrio nesse cenário. “O seguro para mim é a essência de vocês. E eu acredito, meus amigos, que vamos evoluir para um tempo em que o seguro é a base para o crédito. Vamos ter crédito quem tem seguro”, afirmou. Ele também defendeu a irrigação como ferramenta complementar fundamental. “Irrigação é uma forma de seguro, uma forma técnica de seguro. Falta irrigação crescendo no Brasil, com menos burocracia e menos chateação, porque é um instrumento de tranquilidade”.

Rodrigues encerrou sua fala com uma visão inspiradora de futuro. “No tempo que me resta, quero carregar a taça de campeão mundial da paz. O seguro é essencial para isso”.

Na sequência, Esteves Colnago, diretor de Relações Institucionais da CNseg, alertou para a baixa cobertura do seguro agrícola em um país tão dependente do agronegócio. “É uma loucura imaginar que um país com essa potência agrícola tenha só três, quatro, cinco ou seis por cento da sua área plantada coberta”, disse. Ele ressaltou que, diante do agravamento do clima, depender apenas da fé é arriscado demais: “Como é que a gente fica nessa profissão de fé em algo de que dependemos tanto?”.

Colnago também comemorou um avanço regulatório relevante para o setor. “O Banco Central soltou uma consulta pública em que, pela primeira vez, ele olha o seguro como mitigador de risco de crédito. É um passo importantíssimo para integrar política de crédito com política de seguro”.

O primeiro painel foi aberto com a fala de Eduardo Brito Bastos, diretor da ABAG, que trouxe números globais para dimensionar o tamanho do desafio alimentar do planeta. Ele lembrou que 40% da força de trabalho mundial está na agricultura, mas apenas 4% dos investimentos globais chegam ao setor. “Para alimentar a população humana em 2050, precisaríamos derrubar o equivalente a um estado do Pará e um estado de Minas. É óbvio que o planeta não comporta isso”, alertou. Para ele, o caminho passa por dobrar a produtividade média global e recuperar áreas degradadas. “A gente pode usar recuperação das nossas energias. É possível, mas vai demandar muito esforço”.

Bastos também provocou reflexão sobre o financiamento internacional. “Estamos pedindo 60 bilhões em um mundo que está pedindo 3.300. Não é nada impossível que a gente consiga”.

Representando o mercado segurador, Paulo Hora, superintendente executivo rural e resseguro da Brasilseg, destacou como a tecnologia transformou o setor nas últimas duas décadas. “Hoje, essa modalidade de seguro acaba sendo muito transversal às diversas disciplinas”, explicou, ressaltando o papel de engenheiros, veterinários e especialistas no desenvolvimento de produtos e na apuração de perdas.

Ele destacou três grandes verticais tecnológicas: geotecnologia, modelagem de risco e desenvolvimento de produtos. “Quando você tem uma seca numa região, não são três ou quatro produtores que comunicam um aviso de sinistro. São 20 mil comunicados em poucos dias. Isso requer muita tecnologia”.

Hora também reforçou que o mercado evoluiu para oferecer soluções mais precisas. “Capturar dados de clima, solo e manejo é essencial para precificar com mais qualidade”.

No painel, Pedro Loyola, coordenador do FGV Agro – OSR, destacou que não há solução única para os desafios do seguro rural. “Não existe bala de prata”, afirmou. Ele explicou que seguros paramétricos funcionam melhor para pequenos produtores em países como México, Índia e Colômbia, enquanto grandes produtores do Centro-Oeste já dispõem de produtos mais adequados ao seu perfil, como seguros de faixa de produtividade. “Esses produtos já estão disponíveis, mas muitas vezes os produtores não chegam lá por falta de informação e de subsídio”.

Na sequência, Rafael Marani, diretor de Agronegócios da Allianz Seguros, enfatizou a importância de produtos mais personalizados. “O seguro precisa de produtos cada vez mais adequados aos produtores. Precisamos caminhar para um seguro mais personalizado, onde possamos dar o risco, precificar esse risco e oferecer a cobertura adequada”, afirmou.

Ele também reforçou o papel da digitalização e do atendimento ágil. “A experiência do cliente tem que ser muito fácil e rápida. Em um dia de chuva intensa no Paraná, recebemos quase mil sinistros”. Além disso, Marani destacou o papel das seguradoras para a segurança alimentar. “Quando promovemos uma segurança através de produtos que protegem o produtor, ajudamos o agronegócio a permanecer crescendo, sendo resiliente e sustentável”.

O painel de tecnologia foi marcado pela fala de Léo Carvalho, chief global strategy officer da Solinftec, que destacou o impacto das ferramentas digitais. “A tecnologia está alcançando novos patamares no agronegócio e fazendo com que o produtor seja cada vez mais empoderado para tomar melhores decisões”, afirmou. Ele celebrou o papel da Casa do Seguro na COP30. “Mostrou como o produtor, aliado a boas práticas tecnológicas e assegurado com boas concessões de seguros, pode permear sua produtividade e rentabilidade”.

Na mesma linha, Raquel Martins Montagnoli, head de sustentabilidade da CNH para a América Latina, reforçou a relevância da conectividade. “O primeiro ponto foi a importância da conectividade para ajudar o agricultor a ter acesso a toda a tecnologia que ele precisa. Isso vai ajudar ele a ser mais resiliente”, disse. Ela lembrou que máquinas da CASE e da New Holland já oferecem telemetria e dados avançados, mas dependem de infraestrutura de conectividade. “Precisamos batalhar por políticas públicas focadas nisso”.

Encerrando o painel, Murilo Oliveira, CEO da AUDSAT, mostrou como o monitoramento contínuo fortalece o seguro rural. “A tecnologia pode fazer o acompanhamento da lavoura durante todo o ciclo e isso traz muito mais transparência e segurança para o seguro rural”, afirmou.

Por fim, Ivo Kanashiro, superintendente de sustentabilidade da MAPFRE, celebrou os resultados das discussões na Casa do Seguro. “De forma muito clara, mostramos como um mecanismo financeiro como o seguro pode ser um aliado ao combate das mudanças climáticas”, declarou. Ele destacou que a participação superou expectativas. “O saldo foi positivo. A expectativa que a gente tinha foi superada em quase mil vezes”.

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