A expansão acelerada de montadoras chinesas no Brasil está abrindo uma nova frente de negócios para a Porto Serviço. A vertical do Grupo Porto, que já mantém contratos com 12 fabricantes, vê na chegada de novas marcas ao país uma oportunidade para ampliar sua atuação no mercado corporativo e diversificar as fontes de receita para além da Porto Seguro.
O movimento mais recente foi a parceria com a Hyundai, que colocou cerca de 215 mil veículos da marca na base atendida pela Porto Serviço. Ao todo, os contratos com montadoras já alcançam aproximadame
A estratégia ganha relevância em um mercado no qual a cobertura de seguro ainda é baixa. Levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), divulgado em julhou, apontou que apenas 29% da frota nacional possui seguro. São cerca de 44 milhões de veículos, de um total de 63,3 milhões, que circulam sem cobertura para eventos como roubo, furto ou colisão. E é justamente nesse espaço que a Porto Serviço atua.
O serviço prestado às montadoras não é um seguro, mas uma assistência vinculada ao período de garantia do veículo. Quando um consumidor fica parado por uma pane, falta de combustível ou problema no veículo, por exemplo, a Porto pode prestar o atendimento previsto no contrato, com serviços como guincho, encaminhamento à concessionária, carro reserva e, em determinadas situações, hospedagem.
Dessa forma, o proprietário de um Hyundai, por exemplo, pode utilizar a assistência da Porto Serviço mesmo que não tenha seguro da Porto Seguro, ou que tenha contratado o seguro com outra companhia. A assistência não cobre, porém, eventos como roubo ou uma colisão, que fazem parte da cobertura de um seguro.
“A montadora terceiriza isso para Porto Serviço e ela vai ficar no business dela e a Porto Serviço no business dela”, diz Thomas Trabulsi, diretor de Negócios e Parcerias Estratégicas da Porto Serviço.
Para as fabricantes, a lógica é terceirizar uma atividade que exige uma estrutura própria de atendimento e uma rede de prestadores, enquanto concentram recursos no negócio principal. Para a Porto Serviço, o ganho está na escala. Em vez de atender apenas clientes que chegam por meio do seguro da Porto, a companhia passa a acessar diretamente as bases de consumidores das montadoras.
O modelo econômico dos contratos também pode variar. Segundo Trabulsi, há acordos calculados por veículo da base ou modelos em que a cobrança está relacionada ao atendimento realizado. No caso de contratos por base, a precificação considera uma lógica semelhante à atuarial, levando em conta a probabilidade de ocorrência de problemas e a necessidade de assistência entre os veículos cobertos.
Chinesas ampliam mercado potencial
A entrada de novas fabricantes, principalmente chinesas, é acompanhada de perto pela Porto Serviço. A companhia já tem entre seus parceiros nomes como BYD, Denza, GWM, Omoda e Zeekr, além de fabricantes tradicionais como Porsche, Mercedes-Benz, Honda e, agora, Hyundai.
Mas depois da consolidação de BYD e GWM, uma nova leva de empresas prepara o desembarque no país. Marcas como Baic, DFM, Lynk & Co, IM, Lepas, Freelander, Luxeed e iCaur preparam lançamentos, concessionárias e produção local para ampliar a presença chinesa em solo brasileiro ainda neste ano.
De acordo com Trabulsi, as novas montadoras representam uma oportunidade adicional porque muitas ainda estão construindo suas marcas no mercado brasileiro e precisam estruturar uma rede de serviços capaz de acompanhar a expansão das vendas.
“É quase que uma associação de marca, um endosso, algo interessante para eles. A população ainda tem receio de comprar um carro 100% elétrico, e o vendedor usa isso como argumento de venda: ‘Se acontecer qualquer coisa, a Porto Serviço vai buscar você'”, diz.
“Outros pontos importantes são escala, eficiência na rede e a qualidade. Cada vez mais, as empresas precisam se concentrar em seu core business. No caso da Hyundai, por exemplo, o negócio é produzir bons carros, com preços competitivos e qualidade. Então, o gestor precisa pensar em quais atividades fazem sentido manter dentro de casa e quais podem ser terceirizadas para empresas especializadas”, acrescenta o executivo.
A Porto não vê, nesse momento, a chegada dos elétricos como uma barreira à expansão. Segundo o diretor de Negócios e Parcerias Estratégicas da Porto Serviço, as próprias fabricantes têm se preparado para a operação desses veículos e para a disponibilidade de assistência técnica e peças.
O argumento comercial para as montadoras também passa pela experiência do consumidor. Ao comprar um veículo, o cliente recebe não apenas o automóvel, mas também um pacote de serviços durante o período de garantia. Para a fabricante, a assistência passa a fazer parte da experiência com a marca.
“Hoje em dia, as marcas todas, você não precisa necessariamente se verticalizar em tudo, nem é possível mais. Então as marcas todas buscam andar em ecossistemas, em parcerias”, afirma Trabulsi.
Porto quer equilibrar receita com mercado
A expansão das parcerias faz parte de uma estratégia maior da Porto Serviço, que foi criada como uma vertical independente em 2024. Embora a Porto já oferecesse serviços de assistência havia décadas por meio dos seguros, a nova estrutura passou a buscar consumidores e empresas que não necessariamente fazem parte da base de segurados da companhia.
Hoje, a Porto Serviço tem mais de 70 parceiros no mercado, além da própria Porto Seguro. A receita proveniente desse mercado já representa cerca de 28% do faturamento da vertical. A ambição é aumentar progressivamente essa participação até chegar a uma divisão mais equilibrada entre as receitas vindas da Porto Seguro e aquelas geradas por clientes externos.
No segundo trimestre de 2026, a Porto Serviço registrou receita de R$ 659 milhões, alta de 6% sobre um ano antes, e lucro líquido de cerca de R$ 50 milhões. O segmento de Parcerias Estratégicas cresceu 8,2% no período. Quando excluídos contratos que não foram renovados, o avanço chegou a 20,4%, segundo os dados divulgados pela companhia.
Para 2026, a Porto mantém guidance de receita entre R$ 2,6 bilhões e R$ 2,9 bilhões para a vertical.
As montadoras estão entre os principais segmentos dentro dessa estratégia, embora não sejam responsáveis pela maior parte da receita de parcerias. Segundo Trabulsi, o segmento automotivo está entre os 30 maiores clientes ou segmentos da carteira de mais de 70 parceiros.
O executivo não abre a participação das montadoras na receita, mas afirma que a meta é ampliar significativamente a presença da Porto Serviço entre as fabricantes. Hoje são 12 montadoras, e a companhia pretende conquistar uma fatia relevante desse mercado. “O sonho, obviamente, e se tiverem 30 montadoras, que tenhamos as 30”, afirma.
Escala como vantagem competitiva
A expansão, porém, não depende apenas de conquistar novos contratos. A companhia aposta na escala de sua rede para sustentar a estratégia. Segundo o diretor, a Porto Serviço realiza quase 6 milhões de atendimentos por ano, o equivalente a uma média de aproximadamente 13 mil a 15 mil serviços por dia.
A empresa também afirma realizar mais de 50 mil horas de treinamento por ano para sua rede de prestadores. O NPS, indicador utilizado para medir a satisfação dos clientes, está acima de 80 pontos, segundo o executivo.
Essa estrutura é parte da proposta de valor apresentada às montadoras. Elas não precisam montar uma rede própria de prestadores, administrar treinamentos e controlar toda a jornada de atendimento ao consumidor.
Para a Porto Serviço, por outro lado, cada novo contrato aumenta a escala de uma operação que já existe e amplia a quantidade de consumidores que entram em contato com a marca. “Quanto mais oportunidade tivermos de atender clientes, cliente final lá na ponta, isso é melhor para nós, isso é massa crítica”, diz Trabulsi.

