Notícias | 20 de fevereiro de 2026 | Fonte: CQCS | Gabrielly Marqueton com informações do valor econômico

Custo alto afasta quase 60% dos brasileiros dos planos de saúde

De acordo com informações do Valor Econômico, em reportagem publicada no dia 20 de fevereiro, quase 60% dos brasileiros já deixaram de usar o plano de saúde por causa do custo. O dado acende um alerta não apenas para o setor de saúde suplementar, mas também para empresas que dependem desse benefício como ferramenta estratégica de gestão de pessoas.

A informação faz parte do Relatório Global sobre Saúde Corporativa de 2026, elaborado pela Howden, corretora global especializada em seguros de alta complexidade. O estudo ouviu 442 empregadores, sendo 27 no Brasil, e 1.460 funcionários de empresas, traçando um panorama detalhado dos desafios enfrentados pelo setor.

Os números mostram um cenário preocupante: 54,2% dos entrevistados globalmente e 59,2% no Brasil afirmaram que os custos, como a coparticipação, já os impediram de buscar atendimento médico quando necessário. O avanço desse modelo nos planos corporativos brasileiros tem sido uma das principais explicações para o fenômeno.

“Para buscar maior controle de utilização e viabilizar a sustentabilidade do segmento, as operadoras de saúde precisaram disponibilizar para as empresas clientes outras formas de controle, e sem dúvida, o aumento dos contratos com coparticipação é reflexo disso”, afirma Cláudia Machado, vice-presidente de benefícios da Howden Brasil.

“Além disso, nos últimos anos, o mercado de saúde privada investiu muito no controle de fraudes, implementando mecanismos de checagem e controle para pagamentos de reembolso, códigos de uso único para liberação de atendimento na rede credenciada, biometria facial, entre tantos outros. Tudo isso faz com que o paciente tenha que assumir parte do custo do seu tratamento. A chave aqui é o equilíbrio. Todas essas medidas são necessárias e importantes, mas a dose do remédio não pode se transformar no veneno.”

Esse movimento tem consequências diretas dentro das empresas. Ao evitar cuidados médicos por conta dos custos, os trabalhadores tendem a agravar quadros de saúde, o que impacta diretamente na produtividade e nos custos corporativos.

“Os custos [desse cenário] são altos”, diz Machado. “Envolvem afastamentos temporários ou definitivos, absenteísmo, presenteísmo, e principalmente, queda de performance. Somam-se a isso os custos de treinamento e substituição do time.”

A tendência é de aumento contínuo. Segundo o levantamento, 93% dos empregadores ouvidos globalmente esperam que o custo dos benefícios de saúde volte a subir em 2026.

Saúde mental entra no centro da discussão

Além do acesso aos serviços médicos, o relatório evidencia um ponto cada vez mais sensível no ambiente corporativo: a saúde mental.

Globalmente, 49% dos funcionários buscaram algum tipo de assistência psicológica no último ano. Ainda assim, 16% disseram não se sentir confortáveis em utilizar os serviços oferecidos pelas empresas, principalmente por receio de exposição ou impactos na carreira.

Para Cláudia Machado, esse comportamento está diretamente ligado ao estigma ainda presente nas organizações.

“Infelizmente, a experiência com nossos clientes comprova a realidade dos dados. Saúde mental é um tema complexo, que envolve questões pessoais e profissionais, e o receio da exposição e uma retaliação ou prejuízo na carreira acabam levando algumas situações ao limite, e agravam os prejuízos”, comenta Machado, pontuando que “o custo desse silêncio é alto”.

O impacto já aparece nas estatísticas. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por questões relacionadas à saúde mental, o segundo maior número da série histórica do Ministério da Previdência. Casos de ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e já representam o segundo principal motivo de afastamento do trabalho no país, atrás apenas das doenças da coluna.

“A expectativa de como será o retorno ao trabalho [após um afastamento por saúde mental] também é um ponto. Se o retorno ao trabalho após uma cirurgia ortopédica pode ser complicado, o retorno após um afastamento por burnout pode ter impactos mais difíceis de serem geridos: os colegas temem aproximar-se e serem invasivos, a liderança não sabe como cobrar e receia uma acusação de assédio, os liderados temem uma reação desproporcional, e a empresa teme uma crise reputacional. Prato feito para problemas sérios de performance.”

Apesar disso, há sinais positivos. O estudo aponta que 79,9% dos trabalhadores globalmente se dizem confortáveis ou muito confortáveis com as opções de tratamento oferecidas pelas empresas. No Brasil, esse índice sobe para 92,6%, indicando maior aceitação dos benefícios disponíveis.

Benefício estratégico na disputa por talentos

Mesmo diante dos desafios, o plano de saúde segue como um dos principais diferenciais competitivos no mercado de trabalho.

De acordo com o relatório, 55% dos respondentes globalmente e 78% no Brasil afirmam que ter um bom plano de saúde ajuda a atrair talentos. Já para 74% globalmente e 78% no Brasil, o benefício é essencial para a retenção de profissionais.

“No Brasil, estar empregado representa um diferencial importante no acesso a saúde”, pontua Machado.

Outro dado reforça esse cenário. 60% dos entrevistados globalmente e 63% no Brasil afirmam que tendem a permanecer mais tempo em empresas que oferecem um bom pacote de assistência médica. Além disso, 63% globalmente e 80% no Brasil dizem que o benefício impacta diretamente na produtividade.

“A dificuldade de acesso à saúde pública, que apresenta tempo alto de espera para atendimento, faz com que funcionários atendidos por bons planos de saúde tenham menos absenteísmo, presenteísmo e se tratem com mais assertividade”, conclui Machado.

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