A intensificação das tensões políticas e militares na Venezuela recolocou o país no centro das análises de risco do mercado de seguros internacional. O alerta, segundo avaliação da Morningstar DBRS via Sonho Seguro, vai além da exposição direta ao território venezuelano e se concentra, sobretudo, nos impactos indiretos sobre a logística regional, rotas marítimas, portos estratégicos e o espaço aéreo do Caribe, áreas sensíveis para seguros de transporte, aviação e crédito comercial.
De acordo com a agência de rating, a combinação de eventos recentes que inclui a operação militar conduzida pelos Estados Unidos, a captura do então presidente Nicolás Maduro, a nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina e medidas de controle sobre exportações de petróleo e navios-tanque elevou de forma significativa o risco geopolítico na região. O efeito prático é um ambiente mais instável para o comércio internacional e para cadeias logísticas que já operam sob pressão.
Esse novo cenário tende a provocar ajustes no mercado segurador. A Morningstar DBRS via Sonho Seguro, avalia que o aumento da incerteza pode resultar em revisão de preços, restrições contratuais mais severas e até redução da capacidade de resseguro disponível, especialmente em linhas mais expostas ao risco político. O movimento pode afetar diretamente a rentabilidade das seguradoras e ampliar a volatilidade dos resultados.
No segmento de seguro de crédito, a exposição direta à Venezuela permanece limitada. Ainda assim, o agravamento das tensões amplia o risco de perdas em carteiras específicas e eleva a probabilidade de disputas relacionadas a sanções internacionais. Para seguradoras com presença relevante na América Latina e no Caribe, esses fatores passam a exigir atenção redobrada na gestão de riscos.
“Grupos mais diversificados tendem a absorver melhor esse tipo de choque. Já as seguradoras com operações concentradas ficam mais vulneráveis, o que reforça o caráter persistente e imprevisível do risco geopolítico”, afirmou Marcos Alvarez, analista da Morningstar DBRS, em entrevista ao portal português ECO.
Um mercado menor, mais concentrado e de alto risco
Mesmo antes da escalada atual, a Venezuela já figurava entre os mercados mais desafiadores para o setor de seguros. A combinação de crise econômica prolongada, inflação elevada, controles cambiais, sanções internacionais e insegurança jurídica levou a maioria das seguradoras globais a reduzir ou encerrar suas operações no país ao longo da última década.
Hoje, poucas multinacionais mantêm presença relevante. A Mapfre é a principal exceção, com participação próxima de 6%. Em 2019, a Liberty Mutual deixou o país ao vender a Seguros Caracas a um grupo liderado pelo empresário chileno Isidoro Quiroga. A companhia ocupa atualmente a segunda colocação do mercado, com cerca de 20% de participação. No mesmo ano, a Zurich também se desfez de sua operação local, que passou a atuar sob a marca Real Seguros.
Em termos de volume, o mercado segurador venezuelano movimentou cerca de € 1 bilhão em 2024 e 2025. No entanto, esse número é fortemente impactado pela inflação e pela volatilidade do bolívar, o que dificulta comparações mais precisas. Enquanto os prêmios crescem em moeda local, há retração quando convertidos para dólares, refletindo a perda de valor cambial.
O seguro automóvel segue como o principal ramo, respondendo por aproximadamente 40% dos prêmios emitidos. Os seguros patrimoniais representam cerca de 25%, saúde 15% e vida em torno de 12%. O mercado é predominantemente formado por seguradoras privadas, sem ligação direta com o regime político.
A liderança está com a Mercantil, que detém 26,5% do market share, seguida pela Seguros Caracas (20%), Internacional de Seguros (6,1%) e Mapfre (5,6%). As cinco maiores seguradoras concentram cerca de 61% do mercado, enquanto as dez principais respondem por aproximadamente 80% do total.

