Notícias | 25 de setembro de 2026 | Fonte: CQCS | Gabrielly Marqueton

Criminosos mudam estratégia e seguro Fine Art ganha espaço entre as oportunidades para corretores

Uma serra elétrica, uma cerca cortada e poucos minutos foram suficientes para transformar o Museu Renoir, na Riviera Francesa, em cenário de um dos mais recentes ataques contra o patrimônio artístico. Na madrugada de 7 de setembro, dois criminosos invadiram o espaço localizado em Cagnes-sur-Mer e retiraram quatro pinturas. Duas delas acabaram abandonadas durante a fuga, enquanto outras duas, pertencentes ao Museu d’Orsay, em Paris, permanecem desaparecidas.

O episódio expõe uma preocupação que ultrapassa a recuperação das obras roubadas. À medida que criminosos passam a adotar ações mais rápidas, planejadas e agressivas, museus, galerias, colecionadores, transportadoras e instituições que movimentam obras de alto valor também precisam reavaliar a forma como protegem esse patrimônio. Nesse cenário, o seguro especializado para obras de arte ganha relevância, assim como a atuação do corretor na identificação e prevenção dos riscos.

Para Gustavo Bentes, presidente do Sincor-MG, a particularidade do segmento está justamente no fato de que ele lida com bens cujo valor não pode ser analisado apenas sob a ótica financeira. “O mercado de seguros para obras de arte, conhecido como Fine Art, opera em uma dinâmica muito específica”, afirma. Segundo ele, em um setor marcado por bens muitas vezes insubstituíveis, a avaliação e a gestão dos riscos assumem papel tão importante quanto a própria transferência financeira do risco.

O caso do Museu Renoir ajuda a dimensionar esse novo cenário. Segundo informações divulgadas pelas autoridades francesas, o alarme foi acionado às 5h48 e a polícia chegou ao local cerca de cinco minutos depois. Ainda assim, os invasores tiveram tempo suficiente para alcançar o térreo do museu, onde estavam armazenadas obras de arte. Equipados com uma serra elétrica, eles cortaram as estruturas que prendiam as molduras.

O prefeito de Cagnes-sur-Mer classificou os criminosos como “bem equipados e bem preparados”, enquanto as autoridades defenderam o reforço da segurança nos museus franceses.

Para Bentes, o episódio está inserido em uma transformação mais ampla. “Criminosos migraram de furtos simples para ações planejadas de rápida execução”, explica. Entre os métodos citados estão os chamados ataques “smash and grab”, caracterizados pela entrada rápida, retirada dos objetos e fuga, além do uso de violência, armamentos e até técnicas de invasão ciberfísica para comprometer sistemas de proteção.

O risco, porém, não está restrito ao momento em que uma obra está exposta em uma parede. Na avaliação do presidente do Sincor-MG, uma das etapas de maior vulnerabilidade ocorre justamente quando o patrimônio deixa seu local de origem.

“O momento de maior exposição de uma obra de arte não é quando ela está pendurada no museu, mas sim durante o transporte”, destaca Bentes. A movimentação pode ocorrer em exposições itinerantes, empréstimos entre instituições ou durante processos de restauração, criando uma cadeia de riscos que precisa ser considerada na contratação do seguro.

Além do transporte, outros fatores ampliam a exposição. Eventos climáticos extremos, como inundações e tempestades, podem provocar perdas significativas, enquanto falhas no controle de temperatura e umidade durante o armazenamento são capazes de causar danos irreversíveis às peças.

Há ainda riscos associados aos próprios ambientes de exposição. O crescimento de protestos em espaços culturais acrescenta a possibilidade de danos físicos provocados por tintas, substâncias químicas ou agressões diretas às obras. No ambiente digital, galerias e casas de leilão também se tornam alvos de ataques cibernéticos, que podem buscar informações sobre colecionadores, rotas de transporte e sistemas de segurança.

É nesse ambiente de riscos múltiplos que entra o seguro Fine Art. De acordo com Bentes, esse tipo de proteção normalmente trabalha no modelo de “todos os riscos”, conhecido como All Risks, no qual os eventos não expressamente excluídos pela apólice permanecem cobertos.

Em caso de perda total, a proteção pode considerar o valor acordado previamente para a obra. Já em situações de avaria parcial, a cobertura pode envolver os custos de restauração especializada e eventual perda de valor artístico decorrente do dano ou do processo de reparo.

Nas exposições temporárias, a proteção acompanha a obra durante todo o deslocamento. “A cobertura vigora desde o momento em que a obra é retirada da parede de origem até o retorno exato ao seu local original”, explica Bentes, resumindo o conceito como uma proteção “prego a prego”.

A definição do valor segurado também exige uma análise diferente daquela utilizada em bens convencionais. Uma obra de arte não possui necessariamente um preço objetivo e permanente. Por isso, a avaliação realizada por peritos independentes é fundamental para estabelecer o valor garantido na apólice.

A estrutura de segurança do local também interfere diretamente na aceitação do risco e na precificação. Museus que contam com monitoramento 24 horas, controle de acesso biométrico, vitrines blindadas e protocolos seguros de transporte tendem a apresentar condições diferentes daquelas encontradas em locais com estruturas de proteção mais simples.

O mesmo vale para o transporte. Empresas especializadas, com veículos climatizados, suspensão adequada e escolta, podem influenciar a análise feita pelas seguradoras. Já regiões classificadas como de maior criminalidade ou instabilidade podem resultar em prêmios mais elevados ou franquias maiores.

A sofisticação dos riscos também abre espaço para uma atuação mais especializada dos corretores. Para Bentes, o segmento apresenta “oportunidade substancial” justamente porque exige conhecimento técnico e uma abordagem consultiva.

Entre os públicos potenciais estão colecionadores que mantêm obras de alto valor em residências ou depósitos privados, instituições que movimentam peças entre países, empresas responsáveis pelo transporte e armazenamento especializado e organizações que utilizam obras de arte como garantia em operações financeiras.

Um dos pontos de atenção está justamente nos limites das apólices convencionais. Segundo Bentes, clientes de alta renda podem desconhecer que seguros residenciais tradicionais não necessariamente oferecem proteção adequada para seus acervos artísticos.

O crescimento do intercâmbio cultural também cria demandas específicas, especialmente em empréstimos e exposições temporárias, que podem envolver valores elevados de garantia por períodos determinados.

Para atender esse público, porém, o corretor precisa ir além da simples cotação. “O corretor atua como um consultor de riscos, e não como mero vendedor de apólices”, afirma Bentes.

Isso envolve compreender cláusulas específicas do mercado internacional de Fine Art, frequentemente relacionadas ao mercado de resseguros de Londres e ao Lloyd’s, além de construir uma rede de especialistas que inclua avaliadores de arte, restauradores, empresas de logística especializada e gerenciadoras de risco.

A preparação também começa antes da contratação. Orientar o cliente sobre os requisitos mínimos de segurança exigidos pelas seguradoras pode ser parte importante do trabalho consultivo. Na prática, isso significa identificar vulnerabilidades, propor medidas de prevenção e somente então estruturar a proteção adequada.

O roubo no Museu Renoir, portanto, não representa apenas mais um episódio na lista de crimes contra o patrimônio cultural. Ele evidencia como a proteção de obras de arte passou a exigir uma combinação cada vez mais sofisticada de segurança física, tecnologia, logística, avaliação e transferência de riscos.

Enquanto criminosos encontram novas formas de chegar a obras que podem valer milhões, o setor de seguros é chamado a acompanhar essa transformação. Para os corretores, a oportunidade está justamente nesse ponto: compreender que, quando o bem segurado é uma peça única, proteger o patrimônio começa muito antes de uma apólice ser assinada.

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