Notícias | 19 de março de 2026 | Fonte: InfoMoney

Como tensão no Estreito de Ormuz encarece seguros marítimos e pode pesar no seu bolso

A escalada do conflito no Oriente Médio colocou o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo — no centro das atenções do mercado global.

Com ataques a embarcações, retenção de navios e risco crescente à navegação, seguradoras marítimas passaram a cancelar coberturas contra riscos de guerra ou suspender novas apólices para operações na região.

A decisão, prevista em contrato, já eleva custos logísticos e pode impactar o consumidor final.

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

Situado entre Irã e Omã, o Estreito de Ormuz é um corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás.

Mas desde o início dos confrontos na região, em 28 de fevereiro, com os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, a região teve forte redução no tráfego marítimo e aumento de risco para embarcações.

Os dados mostram a dimensão. Segundo levantamento da empresa britânica de dados marítimos Lloyd’s List Intelligence, entre 1º e 11 de março de 2025, mais de 1.200 embarcações cruzaram o estreito. No mesmo período recente, foram apenas 77 travessias .

Além disso, o ambiente de risco se deteriorou rapidamente. Desde o início de março, ao menos 20 embarcações comerciais relataram ataques ou incidentes na região, incluindo petroleiros, de acordo com a agência britânica UKMTO.

A Organização Marítima Internacional (OMI) também confirmou múltiplos episódios envolvendo navios de transporte de energia.

Por que seguradoras estão cancelando coberturas?

A retirada de cobertura para embarcações marítimas é uma resposta direta ao aumento abrupto do risco. Em regiões de conflito, cresce a probabilidade de perdas simultâneas e de grande escala, o que pressiona a capacidade financeira das seguradoras.

“Na prática, os seguradores passam a enxergar risco de perdas severas e correlacionadas: ataque a casco, carga, tripulação, poluição, bloqueio de rota, retenção de embarcação e múltiplos sinistros quase ao mesmo tempo”, afirma Denis Teixeira, vice-presidente sênior de Transportes e Logística da Alper Seguros.

Na avaliação de Tatiana Algodoal, sócia da área consultiva da Schalch Sociedade de Advogados, especialista em seguros e resseguros, os ataques a embarcações transformam um risco antes considerado apenas “potencial” como algo “concreto, atual e de elevada severidade”.

“O que diferencia o caso do Estreito de Ormuz é a combinação de fatores: a velocidade da escalada, a relevância sistêmica da rota, a concentração de ativos de alto valor, a existência de ameaças diretas e públicas à navegação e o efeito agregado sobre seguradoras e resseguradoras em escala global”, explica.

Cancelamento é quebra de contrato?

Apesar do impacto econômico, o cancelamento do seguro não costuma ser considerado descumprimento de contrato, segundo os especialistas ouvidos pelo InfoMoney.

“Esses contratos costumam incluir cláusulas específicas que permitem às seguradoras revisar, suspender ou cancelar a cobertura mediante aviso prévio. Ou seja, a possibilidade de cancelamento já faz parte da arquitetura contratual desse tipo de seguro.”— explica Denis Teixeira, da Alper Seguros

Na prática, o ponto central não é se a seguradora pode cancelar, mas se o cancelamento foi feito respeitando as regras previstas na apólice (contrato de seguro).

Segundo Algodoal, os contratos de seguro marítimo incorporam cláusulas padrão internacionais — como a Institute War Cancellation Clause — que autorizam o cancelamento da cobertura de guerra mediante aviso prévio, normalmente de 7 dias ou 72 horas. Mas só é válido se o prazo de aviso seja respeitado e a cobertura seja mantida para riscos já iniciados antes da data efetiva do cancelamento.

“Embarques realizados antes da eficácia do aviso, permanecem cobertos. Embarques posteriores a data do cancelamento, ficam sem a cobertura para riscos de guerra”, diz Algodoal.

Como isso impacta o consumidor brasileiro?

Mesmo distante do conflito, o Brasil não fica imune. O impacto chega de forma indireta, via aumento de custos, dizem os especialistas.

“Sem cobertura de risco de guerra, o navio não navega, ou apenas navega mediante renegociação onerosa e excepcional, com efeitos econômicos e jurídicos que acabam por afetar todos que estão na operação de transporte marítimo.”— comenta Tatiana Algodoal, do Schalch Advogados

Segundo ela, esse movimento tende a se refletir, em primeiro lugar, em combustíveis mais caros, o que já está acontecendo.

Nesta terça-feira (17), os índices de referência do petróleo bruto do Oriente Médio atingiram recordes históricos, tornando-se os mais caros do mundo.

O preço do petróleo Dubai foi avaliado em um recorde de US$ 157,66 (R$ 824,56) para cargas de carregamento de maio, informou a S&P Global Platts, superando o recorde histórico dos futuros do barril Brent, referência mundial, de US$ 147,50 em 2008.

Rodrigo Protasio, CEO da Gallagher Retail no Brasil e especialista em Grandes Riscos, destaca que a volatilidade financeira e a pressão sobre os preços do petróleo geram um efeito cascata.

“Conflitos prolongados pressionam o preço do petróleo e ampliam os custos de energia, alimentando a inflação global. Isso impacta o setor de seguros ao elevar custos de sinistros [ocorrência do risco previsto no contrato] e valores segurados”, diz.

Teixeira, da Alper, explica que quando sobe o prêmio de seguro (valor pago pelo cliente à seguradora ao contratar a proteção), sobe também o custo total do transporte marítimo. “Esse repasse acaba entrando no custo Brasil e, em muitos casos, no preço final ao consumidor”, pontua o especialista.

Esse encarecimento se propaga pela cadeia produtiva, afetando o custo de produção e distribuição de bens essenciais. Por exemplo: alimentos tornam‑se mais caros em razão do aumento do preço de fertilizantes, energia e frete. Produtos importados, por sua vez, sofrem reajustes decorrentes do maior custo logístico e da menor previsibilidade das entregas.

“O efeito não se limita a um setor específico, mas alcança diferentes segmentos do consumo cotidiano”, diz Algodoal.

Na perspectiva de Leonardo Coelho, CEO para o Brasil na Aon, as implicações para energia e cadeias de suprimentos dependerão fortemente da duração e da escalada.

“Qualquer interrupção prolongada começa a afetar o suprimento, coloca pressão crescente sobre os preços e cria efeitos subsequentes nas cadeias de suprimentos globais muito além da região”, diz.

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