Márcia demorou a conseguir dormir na noite anterior. Estava ansiosa pelo diagnóstico de um exame realizado dias antes para identificar a doença que lhe causava fortes dores pelo corpo. Nas primeiras horas da manhã, tomou café às pressas e seguiu para o hospital particular localizado no Recife, onde saberia o resultado. Mas a empresária de 58 anos ficou surpresa com a resposta.
Um funcionário, atencioso, informou que não seria possível fornecer o resultado. Pior: talvez ela precisasse realizar novamente o exame porque os dados haviam “sumido” após uma invasão cibernética ao sistema eletrônico da unidade de saúde. O histórico de outros pacientes também havia sido afetado. O crime, denunciado à Polícia Civil, trouxe prejuízos financeiros ao hospital, mas, sobretudo, aos pacientes que precisavam dos diagnósticos para dar continuidade ao tratamento de saúde.
O nome de Márcia é fictício, a pedido dela. O episódio, porém, é real e ocorreu no segundo semestre de 2024. Desde então, os casos de ataques hackers a empresas continuam no radar das autoridades e do mercado segurador, principalmente os conhecidos como ransomware.
Nessa invasão, os criminosos acessam os servidores onde estão armazenados dados sensíveis usando um programa que permite criptografar todas as informações, impedindo que as companhias tenham acesso a elas. Em seguida, ameaçam as vítimas e cobram valores elevados para liberar os dados.
O relatório O Estado do Ransomware no Brasil 2026, divulgado em julho, indicou que 56% dos ataques de ransomware resultaram em dados criptografados — parte deles também envolveu o roubo de informações. O estudo informou que 98% das empresas conseguiram recuperar as informações, mas, em 45% desses casos, isso só foi possível após o pagamento de resgate.
“Quando se trata de dinheiro, é preciso fortalecer a segurança, porque, quando há invasão de dados, a empresa fica de mãos atadas. E esses casos cresceram”, alertou a delegada Lígia Cardoso, da Polícia Civil de Pernambuco.
Com o uso da inteligência artificial, os criminosos também aperfeiçoam golpes como o phishing. Por meio de mensagens falsas, funcionários são induzidos a fornecer dados sensíveis e a autorizar pagamentos, o que pode provocar prejuízos financeiros às empresas.
Em todo o país, ataques hackers atingem companhias de diferentes setores. Diante do avanço dessas ameaças e da necessidade de reforçar a segurança e reduzir os prejuízos decorrentes de invasões aos sistemas, o seguro cibernético ganha espaço como uma alternativa de proteção financeira e operacional.
SEGUROS CIBERNÉTICOS GANHAM ESPAÇO
Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), referentes apenas ao primeiro semestre de 2026, mostram que a arrecadação do seguro cibernético chegou a R$ 4,1 milhões nas regiões Norte e Nordeste, o que representa o crescimento de 152,1% em relação ao mesmo período de 2025. No Brasil, o segmento movimentou R$ 179,1 milhões, com alta de 63,1%.
No mesmo período, as indenizações pagas pelo mercado brasileiro de seguro cibernético alcançaram R$ 77 milhões. O valor representa um avanço de 348,2% em relação ao primeiro semestre do ano anterior. Os dados indicam a expansão da contratação desse serviço e o aumento no volume de indenizações pagas em decorrência de incidentes.
Na avaliação de Leandro Vasco, diretor do Sindicato das Seguradoras Norte e Nordeste (Sindsegnne), a evolução do mercado acompanha uma mudança na percepção das empresas sobre os riscos dos ataques hackers.
“Deixou de ser uma preocupação restrita à área de tecnologia e passou a fazer parte da gestão do negócio. Um incidente pode comprometer sistemas, interromper operações, expor dados e gerar custos jurídicos e financeiros. O seguro entra como uma camada adicional de proteção para esses momentos”, disse.
Vasco pontuou que o Brasil está entre os países mais atingidos por tentativas de ataques cibernéticos. Segundo levantamento do FortiGuard Labs, o país concentrou 84% das tentativas registradas na América Latina e no Canadá no primeiro semestre de 2025.

Entre as empresas que devem avaliar essa proteção estão as que armazenam grandes volumes de dados, realizam transações financeiras digitais, dependem de sistemas conectados ou prestam serviços essenciais.
A lista inclui instituições financeiras, empresas de tecnologia, comércio eletrônico, prestadores de serviços de saúde, indústria, logística e varejo. Segundo Vasco, porém, não há um ranking público que permita identificar os setores que mais contratam o seguro.
O diretor também destacou os ataques de ransomware e as fraudes que exploram a engenharia social entre os incidentes capazes de provocar grandes prejuízos às companhias. Por isso, ressaltou, é necessário redobrar os cuidados.
“A gestão do risco precisa acompanhar a evolução das ameaças, combinando tecnologia, processos internos, capacitação dos funcionários e preparação para resposta a incidentes. A crescente sofisticação dos ataques cibernéticos reforça a importância de uma abordagem preventiva e contínua”, afirmou.
Além da proteção financeira, o seguro cibernético pode oferecer suporte especializado para enfrentar as consequências de um ataque.
Dependendo das condições contratadas, as apólices podem cobrir despesas de investigação e resposta ao incidente, recuperação de sistemas e dados, interrupção das atividades e determinados custos jurídicos. Algumas também podem incluir responsabilidades decorrentes de vazamento ou comprometimento de dados de terceiros.
A contratação, porém, não ocorre de forma automática.
“Podem existir exclusões, limites de indenização, franquias e exigências específicas de comunicação e documentação do sinistro. Também é fundamental que as informações fornecidas na contratação sejam corretas e que a empresa cumpra suas obrigações contratuais. Por isso, recomendamos que as condições gerais e as coberturas contratadas sejam lidas e analisadas com cuidado, com o apoio de um corretor de seguros, para que a empresa compreenda os riscos efetivamente cobertos e as situações que podem não gerar indenização”, complementou.
Antes de definir a cobertura e o prêmio, as seguradoras avaliam o nível de exposição da empresa aos riscos digitais. Entre os aspectos considerados estão a estrutura de segurança da informação, o volume e a natureza dos dados armazenados, os controles de acesso, o histórico de incidentes, as políticas de backup, a atualização dos sistemas, a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e os treinamentos oferecidos aos funcionários.
“Quanto maior a maturidade da empresa na gestão dos riscos cibernéticos, mais informações a seguradora terá para avaliar a exposição e estabelecer as condições da apólice”
Leandro Vasco, diretor do Sindsegnne
Entre as medidas que ajudam a reduzir a exposição estão o controle de acessos, a atualização frequente de sistemas e softwares, o monitoramento das redes, a utilização de mecanismos de autenticação mais seguros e a manutenção de rotinas de backup e recuperação de dados.
O treinamento dos funcionários também é fundamental, principalmente diante de golpes que exploram a engenharia social, links maliciosos, credenciais comprometidas e senhas vulneráveis.

MERCADO AINDA TEM DESAFIOS
Na avaliação de Leandro Vasco, o desafio do setor de seguros cibernéticos, nos próximos anos, será ampliar o acesso à proteção, aprimorar a avaliação dos riscos e estimular uma cultura de prevenção.
“O seguro cibernético é uma ferramenta importante de transferência de risco, mas seus melhores resultados dependem da combinação entre proteção contratual, segurança tecnológica e preparo da empresa para enfrentar incidentes”, disse.
Para o diretor, a contratação também pode reforçar a confiança de clientes e parceiros, desde que faça parte de uma estratégia mais ampla de segurança e continuidade dos negócios.
Vasco ressaltou que as regiões Norte e Nordeste apresentam grande potencial de crescimento no mercado de seguros.
“No Nordeste, esse tema merece atenção em atividades como comércio e varejo, turismo e hotelaria, saúde, serviços financeiros, logística e transporte, além de empresas que atuam nos complexos portuários e nas cadeias de fornecimento. Esses setores apresentam diferentes níveis de exposição, conforme o volume de dados processados, a dependência de sistemas digitais e o impacto de uma eventual interrupção”, explicou.
“A avaliação deve considerar as características e os riscos específicos de cada empresa. Mas é importante destacar que o seguro deve complementar e nunca substituir as medidas de prevenção e segurança da informação”, completou.
POLÍCIA ALERTA PARA OUTROS GOLPES VIRTUAIS
A delegada Lígia Cardoso, da Polícia Civil de Pernambuco, reforçou que as empresas devem ficar atentas a outros golpes que envolvem engenharia social e inteligência artificial, técnicas cada vez mais comuns e capazes de gerar grandes prejuízos.
“Há o golpe em que os criminosos fingem que fizeram o pagamento por Pix, mandam o comprovante falso pelo WhatsApp e conseguem recolher as mercadorias em depósitos. Só depois as empresas percebem que foram enganadas”, relatou.
Uma empresa do ramo alimentício localizada no Recife teve um prejuízo de mais de R$ 800 mil após possibilitar aos clientes o pagamento com cartão de crédito por meio de um link gerado na internet.
“Os criminosos usaram vários cartões clonados para fazer os pagamentos e pegar as mercadorias, sem que a empresa se desse conta de que estava sofrendo um golpe”, contou a delegada.
Lígia Cardoso ressaltou que, nos casos de compras com cartões clonados, os titulares dos cartões utilizados indevidamente podem solicitar o estorno aos bancos. Com isso, o prejuízo recai sobre as organizações, que não recebem o dinheiro pelos produtos vendidos e já entregues.
“A orientação principal é que os funcionários fiquem muito atentos aos comprovantes”, finalizou a delegada.
Segundo a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicada em julho, 346.753 ocorrências de estelionato por meio eletrônico foram registradas no Brasil em 2025. A alta foi de 20,6% em relação ao ano anterior. Os dados são copilados a partir das informações fornecidas pelas secretarias de segurança estaduais.

