Mudanças nas regras de planos de saúde propostas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) “não podem estatizar” o setor, que demanda uma desregulamentação para que o mercado consiga crescer. É o que defende Raquel Reis, CEO da SulAmérica Saúde e Odonto (incorporada à Rede D’Or em 2022) e eleita presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde).
Com 24 anos de experiência, a executiva que agora comanda a entidade que representa as maiores operadoras de saúde do país propõe, em entrevista ao GLOBO, que a inclusão de alguns medicamentos no rol obrigatório de cobertura contemple uma “divisão de risco” entre os planos e as farmacêuticas.
Na SulAmérica, ela investe na renegociação de contratos com clientes e rede credenciada e no combate às fraudes, além do crescimento fora do eixo Rio-São Paulo. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
A senhora chega à presidência da FenaSaúde enquanto a ANS discute mudanças regulatórias significativas. Como vê essa agenda?
De forma muito preocupante. É óbvio que o setor precisa de evolução e ajustes são necessários, só não pode ter uma mudança tão estrutural de forma tão açodada. São temas relevantes com impacto gigantesco. A ANS está dispensando a avaliação de impacto regulatório.
As operadoras estão assustadas e são contrárias à forma como isso está sendo feito. As associações de consumidores também estão extremamente preocupadas. A reguladora é importante, mas tem de facilitar a evolução do mercado, em alguns casos até olhar para uma desregulamentação.
Como?
O grande desafio, que deveria ser uma agenda comum do Ministério da Saúde, da ANS e das operadoras, é como a gente faz para crescer o mercado, o que pode gerar um impacto positivo no PIB, seja no crescimento de faturamento, seja no recolhimento de tributos. Ele desafoga o SUS em diversas regiões onde está afogado. Há diversas possibilidades.
Não temos no Brasil um repositório único de dados de saúde, com uma visão 360 graus dos usuários. Isso evitaria exames e procedimentos desnecessários e criaria uma identidade da pessoa ao longo da vida.
O projeto da ANS prevê alterações como sinistralidade mínima e veto ao acúmulo de índices para reajuste dos planos coletivos. A agência fala em mais transparência…
Não me oponho a que a ANS deixe claro o que tem que constar em contrato e até torne isso comum para as operadoras. O que não pode é praticamente estatizar os planos de saúde, dizendo com qual margem máxima cada empresa tem de trabalhar. Cada uma tem suas diferenças.
Como determinar que o índice de reajuste para fins de sinistralidade seja de no mínimo 75% para quem tem 5% de despesa administrativa e para quem tem 15%? Não é factível.
O setor questiona a inclusão de remédios de alto custo no rol e a alta judicialização. Como reajustar planos sem onerar excessivamente o consumidor?
O plano de saúde é o seguro de mais difícil precificação, e isso fica mais difícil ainda com a judicialização. E se alguém fala “preciso da liberação disso, caso contrário vou morrer” numa sexta-feira à noite, o que você faz? Libera. Mas em muitas situações não é urgência ou tem alguma fraude envolvida.
O outro problema é a incorporação tecnológica. Estão surgindo medicações revolucionárias, e a produção é boa, deixa as pessoas viverem mais e melhor. Mas traz custos absurdos e tira qualquer tipo de previsibilidade que a gente tenha na formação de preço.
Mas há espaço para um impacto financeiro menor aos usuários?
É fundamental que a ANS olhe para uma agenda de flexibilização. Deveríamos pensar em pacotes modulados. Se para mim não faz sentido ter um produto com consulta, se quero produto apenas com internação e exames, não posso ter esse produto hoje.
Por que não posso dizer que só quero acionar meu plano se tiver alguma utilização acima de R$ 10 mil? Isso traria uma redução absurda na precificação inicial. Pode ser a alternativa para 100% das pessoas? Claro que não. Mas com certeza tem uma parte do público que ia preferir ter isso.
Não é possível não olhar para o mercado não regulado, os cartões de descontos, que atendem à demanda de uma parte da população, mas totalmente na contramão do que a ANS tenta colocar nas novas regras de coparticipação (a proposta é de um limite de 30% por procedimento).
No cartão de desconto, você paga um determinado valor por mês e quando for usar uma consulta que custaria, via de regra, R$ 100, ela vai custar R$ 70, por exemplo. No fim do dia, é um produto que tem 70% de coparticipação, se fosse um produto regulado.
Então os cartões de descontos estão roubando um espaço que poderia ser das operadoras?
Não, mas acho que tem um público que não está nem nos cartões de desconto, nem nas operadoras. Ou que está em algumas operadoras mais low cost que poderiam dar um passo a mais e ir para uma seguradora ou para uma operadora sem verticalização, se tivéssemos modulação.
E qual a saída para garantir os tratamentos?
É importante que a indústria farmacêutica explique como é feita a precificação. O que faz um remédio custar R$ 18 milhões? Não consigo explicar. E também precisa dividir o risco. Se está prometendo quase um milagre, então a operadora vai fracionar o pagamento em cinco anos. Se a pessoa sobreviver, e com o prognóstico alinhado em bula, pago 1/5 do valor por ano, até que complete 100% do valor.
Outros países, como a Inglaterra, já têm esse compartilhamento de risco. A evolução tecnológica é excelente, mas todo mundo tem que se adaptar. As operadoras estão se adaptando, mas a indústria farmacêutica não está fazendo a parte dela.
Algo muito debatido, por causa do custo, são terapias para pessoas com autismo. Como garanti-las?
A liberação do limite de terapia foi mais um dos movimentos da ANS sem avaliação de impacto. Vemos uma quantidade grande de diagnósticos e temos dúvidas se 100% estão corretos. E a quantidade de horas de indicação de terapia também parece estar muito grande. Não pretendemos que tenha uma limitação (de horas), mas uma diretriz clara de utilização.
Abrimos um centro de autismo da Rede D’Or em Santo André. As cem primeiras crianças já estavam em atendimento em alguma clínica ou com diagnóstico de autismo. Dessas cem, 42 não tinham o diagnóstico (segundo os neuropediatras do centro).
Era TDAH (déficit de atenção e hiperatividade), ansiedade… Uma delas tinha um tumor cerebral, foi operada, está bem, mas poderia ter sido operada sete meses antes. E das outras quase 60 crianças, invariavelmente a quantidade de horas de atendimento baixou.
No último balanço da ANS, a SulAmérica é a que mais cresce em número de usuários, com adição de 174 mil vidas em 2024, chegando a 2,95 milhões de clientes. Como crescer mais?
Temos um plano estratégico que visa melhorias contínuas no setor de saúde e, principalmente, na qualidade dos serviços oferecidos aos clientes de todo o Brasil. Crescer mais, para nós, não está atrelado apenas a números. Nosso maior crescimento está no aumento do número de vidas atendidas e que estão sob a cobertura de uma das melhores redes hospitalares e de atendimento de saúde suplementar no país. Nesse sentido, crescer mais está conectado à promessa de oferecer o melhor serviço. E, para isso, o crescimento precisa ser sustentável.